terça-feira, novembro 04, 2008

Dark Star


Ciclo dedicado ao grande realizador de culto, mas também algo underrated, John Carpenter na Cinemateca. Outubro, Novembro e Dezembro. Bem queria, mas não posso ir ver ou rever todos. A escolha tem de ser criteriosa. Nada melhor do que começar por ver um que nunca vi antes: o mítico primeiro filme de Carpenter, de 1974, inicialmente um projecto enquanto estudante do curso de cinema, juntamente com o argumentista e pseudo-actor Dan O'Bannon e posteriormente, "tratado" para lançamento comercial. Exactamente o mesmo percurso feito pelo "THX1138" de George Lucas, poucos anos antes (há aliás uma rferência a este filme, embora seja rápida e difícil de apanhar).
Sendo o que é, e independentemente de ser um 'cult movie', admito que é preciso ter uma certa vontade, uma determinada predisposição e uma abordagem muito específica a este filme. Uma série de factores mentais que nos permitam concentrarmo-nos não nos cenários algo pobres, nos efeitos especiais fraquinhos ou nas interpretações francamente más de alguns actores, mas sim no que realmente este filme trouxe de novo.
Feito alguns anos após "2001 A Space Odissey" de Kubrick, é óbvio que o filme de Carpenter traz alguns elementos em comum com aquele. Mas não é uma cópia ou sequer homenagem. Trata-se sim de um apropriar de uma estética específica da "space-opera sci-fi", na altura ainda bastante virgem, e encaminhá-la noutra direcção, uma direcção mais leve, mais parodiante. Sim, porque "Dark Star" não deixa de ser uma comédia.
Porém, em verdade se diga que, filmes de FC com este tipo de abordagem não vingaram muito, especialmente com o lançamento da mega bomba que foi o "Star Wars" em 1977. Foi este que determinou a linha de condução de incontáveis filmes de ficção científica. Mas o interessante é ver que Lucas veio buscar bastantes ideias e soluções ao "Dark Star" que funciona assim como um antepassado (não tão antigo) do "Star Wars".
Mas há mais! E para quem é um fã acérrimo e incondicional do "Alien" de Riddley Scott, de 1979, é uma delícia descobrir que, agora sim, "Dark Star" é um antepassado muito directo do "Alien". A sequência no primeiro filme em que o Sargento Pinback, desempenhado por Dan O'Bannon, persegue a mascote da nave, um inenarrável "alien", nada mais do que uma bola de praia com garras (true!) foi a inspiração directa do segundo filme. Pois claro, se foi o mesmo Dan O'Bannon que escreveu o argumento do "Alien". Em cinco anos passámos de uma situação algo cómica de um homem a perseguir um alien para uma situação tenebrosa de um alien a perseguir um grupo de homens pelos corredores de uma nave espacial. E a famosa cena da faca e da mão na mesa? Pois, é do "Dark Star" originalmente.
A cena final deste último, em que o Tenente Doolitle tem de convencer a bomba 20 a não explodir com recurso a um diálogo sofista e decorrente da "fenomenologia" é dos diálogos mais alucinados do cinema.
O Terry Jones deve ter-se lembrado desta cena quando no seu "Douglas Adams' Starship Titanic" introduziu uma bomba consciente com a qual se tem de manter um constante diálogo para a fazer "esquecer-se" da contagem para a sua explosão.
Portanto, vale bem a pena ver este filme, nem que seja pela curiosidade em ver uma obra que, mesmo com todas as suas deficiências, estabeleceu uma série de ideias que mais tarde foram usadas e re-aproveitadas. Bom para quem gosta destas curiosidades.


Trailer:



Bomb 20:



Seguiu-se já, entretanto, o "The Fog", "Escape From N.Y." e o "Assault on Precint 13", todos clássicos excelentes. Descobrimos o outro dia, o Gustavo e eu, que o "Assault on Precint 13", de 1976, o filme em que Carpenter homenageia o western clássico de Howard Hawks (e também, em certa medida "The Night of the Living Dead" de George Romero), um filme bastante violento, com uma das cenas, logo ao início, das mais puxadas que já vi para aquela época, descobrimos, dizia eu, que se trata afinal de uma comédia!! Aparentemente a Sala Luís de Pina estava cheia de pessoas que acharam uma piada monumental ao filme. Havia lá dois 'monos' no entanto que cometiam a proeza audaz de apenas se rirem nas partes que realmente têm piada, isto é, nas partes mais humorísticas que o próprio Carpenter entendeu introduzir para aliviar a tensão do filme. Sim, essas tinham piada. Agora...não sei...devo estar a ficar velho....não percebi a razão de tanta risota.
Ou talvez tenha percebido. "Assault on Precint 13" é um clássico, um cult movie, que já teve direito a remake recentemente. Certo e determinado público vai de propósito à Cinemateca ver este filme, que é um clássico propagado em todo o lado. Fica bem. Mas obviamente que são demasiado 'cool', inteligentes ou intelectuais, para conseguirem 'suportar' a afronta que é ver um filme daqueles. O sacríficio que fazem pelo cinema é digno de nota, mas por favor, não incomodem as pessoas que estão a ver o filme descansadas e respeitadores.


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4 comentários:

Anónimo disse...

eu percebo...
eu percebo a irritação de estar a ver um filme "de culto" e ser incomodado por alarves que se riem de qq coisa que supostamente não é para ter graça. mas o problema é mesmo esse: "supostamente" porque a mim pessoalmente os filmes do carpenter dão-me muita vontade de rir sobretudo nas partes em que não são feitos para ter piada. eu gosto bastante de alguns filmes do john carpenter precisamente por serem filmes "mal feitos". banda sonora normalmente de fugir feita pelo próprio, actores que devem ser escolhidos a dedo por serem exímios na arte de mal representar, efeitos especiais ao nível dos melhores da altura do cinema mudo... enfim, realmente filmes como "Assault on Precint 13", "Christine" e muitos outros feitos com orçamentos muito baixos dão-me realmente bastante vontade de rir. mas atenção eu gosto dos filmes e admiro a coragem que está por trás deles, a coragem e a vontade de criar algo em que se acredita verdadeiramente.

Bola Oito disse...

Eis um comentário digno de nota. Obrigado caro Anónimo.

Sim, eu sei que a minha reacção parece algo exagerada e snob. Sim, eu sei. Pq eu tb sou grande fã do Carpenter e sei bem reconhecer alguns elementos kitsch ou extraordinariamente datados ou mesmo dotados de um cariz mais risível que o normal. Indepenfdentemente de adorar os filmes, sei bem que certos filmes dele têm ou podem ter esse condão de nos fazer rir nos momentos menos próprios.
Eu próprio sei apreciar esses momentos e rir-me inclusivamente. Mas SEMPRE? Rir de TUDO? Rir numa cena em que uma sala é varrida por uma rajada de tiros fazendo levantar voo algumas resmas de papel? Onde está a piada?

Rir da má actuação de alguns actores, tudo bem, pronto. Mas mm assim, SEMPRE? lol

Mas foi azar sabes? O "Dark Star" não só é uma comédia, como está REPLETO de momentos "péssimos", desde os efeitos especiais à actuação absurda de quase todos os actores....e curiosamente pouca gente se riu aí....

Obrigado pelo comentário.

Joao disse...

.. dasse.. deixei passar o ciclo.. shiiit!

Bola Oito disse...

João, o ciclo decorre ainda este mês todo e penso mesmo que ainda chega a Dezembro. :)

Vai ao site da Cinemateca!