E eis o novo de Woody Allen. Parece que é baseado num argumento escrito por ele e esquecido numa gaveta há anos. Em boa hora foi recuperado, porque se trata de um filme realmente delicioso. Esqueçam-se os críticos de cinema que deitaram abaixo o filme (embora o Cine Cartaz do Público tenha sido unânime na apreciação positiva do filme, coisa rara), esqueçam-se os comentários do costume sobre o facto de de ser sempre a "mesma coisa", a mesma "fórmula", a mesma "receita". Mesmo que o seja, porquê reparar o que não está estragado? Eis um cliché, tão odiado por Boris Yellnikoff, a personagem de Larry David, mas que, como ele próprio chega a reconhecer, são, se calhar, a melhor forma que há para exprimir um dado sentimento ou determinada ideia.
Mesmo sendo baseado numa ideia "antiga", o filme é perfeitamente actual, nada datado. Neste cabe a Larry David fazer as vezes de Woody Allen. O que não deixa de ser cómico tendo em conta que ele viu Jason Alexander a fazer dele durante quase uma década no "Seinfeld", série co-escrita por ele. E depois de ter visto a prestação dele na sua própria série "Curb Your Enthusiasm" (só vi meia dúzia de episódios infelizmente), não pude deixar de esperar este filme com alguma antecipação. Boris Yellnikoff é "Woody Allen" levado ao extremo: ultra neurótico, hipocondríaco, suicida, amargo, inconveniente, misantropo e misógino.
E a premissa base do filme parte da ideia de como reagirá Boris -e se relacionará- com uma pessoa que cai de pára-quedas na sua vida e é o seu completo oposto.
O Larry David é perfeito para o papel (porra, começo a acreditar que ele tem muito desta personalidade e humor). As pessoas esquecem-se que ele não é actor, pelo que alguma rigidez aqui e ali, não deve ser levada a mal. Porém, se funcionou na perfeição desta vez, duvido que Allen o consiga "aproveitar" para outro papel principal.
Mas aqui serve que nem uma luva. E o mais interessante da sua personagem é que, ao contrário de N filmes cuja personagem principal é amarga e antipática, Boris mantém o mesmo registo do princípio até ao fim. Não há qualquer redenção iluminada trazida pela personagem feminina; aliás, é exactamente o contrário: esta é que é atraída pela "escuridão" de Boris. Em geral, quase todas as personagens sofrem alterações, especilalmente os alucinados pais da rapariga (brilhantes actuações), mas Boris não; esse mantém-se intocado, um génio espectador de todas estas vidas mirabolantes dos "vermes" que o rodeiam, partilhando connosco, "neandertais que respiram pela boca" alarvemente, a sua sabedoria sobre a vida, felicidade, amor e quejandos.
Quem não aprecia o Woody Allen, não deverá ficar fã com este filme certamente. Mas quem aprecia...ah, que bela pérola.
"I'm not a likeable guy!" You said it man!






