Bem, genial ou meramente um chico-esperto, a verdade é que o Quentin Tarantino continua na sua senda geek de homenagem ao passado obscuro (e americano) do cinema. Há que lhe dar o devido crédito. O homem construiu uma carreira de culto, e com sucesso, à custa de estilos demodé: desde o corriqueiro filme de gangsters no Reservoir Dogs (um filme sobre um assalto a um banco onde a única coisa que não se vê É o assalto em si), passando pelos 'pulp fiction' (yap, esse mesmo), pelos blaxploitation dos anos 70 em Jackie Brown e pelos filmes de artes marciais de Hong Kong no Kill Bill.
Desta vez achou por bem prestar homenagem à indústria "grindhouse" americana, uma espécie de circuito underground de produção de filmes de terror e afins de série B, que depois eram apresentados em double feature em salas ranhosas por todo o país. Estavam em constante circulação de sala para sala, acabando por ficar em péssimas condições de apresentação.
Assim, em conjunto com o compincha Robert Rodriguez, outro fã declarado do género, criaram o conceito "Grindhouse": dois filmes, trailers (falsos) entre ambos e defeitos propositadamente criados para dar a ideia de má qualidade e muito uso (tipo aquela série que o Toupas me recomendou há meses chamada "Garth Marenghi's Dark Place", aqui com as séries de TV dos anos 80 a serem genialmente emuladas). Aliás penso mesmo que o grosso dos efeitos especiais deve ter sido utilizado para dar o aspecto horrível e pouco sofisticado ao filme. Tudo isto é muito giro e tal, mas os europeus, provavelmente, não têm muito a ver com este
conceito double feature. Simplemente não acontece por cá. Por isso os dois filmes foram autonomizados (os resultados pouco famosos nas bilheteiras americanas também devem ter pesado na opção). "Death Proof" já cá mora, resta esperar pelo "Planet Terror". Pontos positivos: temos mais filme, quer de um, quer de outro. A versão original dupla mostra menos de cada um dos filmes do que aquela que nós vemos. Desvirtua o conceito original sim, mas temos mais de cada um. Aliás li algures que o "Planet Terror" é de tal maneira alucinante que o público chegava ao "Death Proof" já extenuado.
Pontos negativos: mais filme significa mais diálogo, e se o Tarantino é um mestre declarado em dar um look cool às conversas mais banais dos seus personagens (vide diálogo sobre a foot massage no "Pulp Fiction", sobre a Madonna no "Reservoir Dogs", etc etc), a verdade é que no "Death Proof", a dado momento pode ser um pouco cansativa tanta "girl talk". Mas é apenas uma ligeira nuance rapidamente compensada pela presença de um dos mais subvalorizados actores de Hollywood, Kurt Russell, o actor fétiche de James Carpenter (que será feito dele a propósito?).
Para além disso, do Kurt Russell e dessa enorme "girl talk", em duas doses, (propositadamente?) similares, temos: carros, perseguições e violência. Parece pouco e básico, mas a verdade é que funciona. É um filme com um alto factor de entretenimento e adrenalina. Bolas, é um filme à Tarantino, cool e estilizado, ainda mais depurado e "simplificado" que o anterior "Kill Bill". A história resume-se em meia dúzia de palavras, mas isso, curiosamente, não é um mau aspecto.
O outro ponto negativo de terem separado os dois filmes é o de não termos oportunidade de ver os trailers falsos realizados para completar a experiência. Mas enquanto se espera pelo DVD, valha-nos Santo Youtube!
"Machete" - Robert Rodriguez:
"Werewolf Women From The SS" - Rob Zombie:
"Thanksgiving" - Eli Roth
"Don't" - Edgar Wright e Simon Pegg
"Hobo With A Shotgun" - Jason Eisener, John Davies e Rob Cotterill.
Achtung. Sangue e tripas elevados ao seu máximo expoente!