Numa inédita, inusitada e inesperada sessão dupla, dei comigo a 'papar' estes dois filmes de enfiada. E ainda bem, porque se um não oferece grandes comentários, o outro, por sua vez, oferece toda uma vasta panóplia de ideias, pensamentos, teorias e afins.
Bom. "Up In The Air", o terceiro filme de Jason Reitman (esse mesmo, o filho do Ivan, realizador de tantos clássicos dos anos 80, entre eles o "Ghostbusters"), sucede a "Thank You For Smoking" e "Juno". Vi apenas este último, o "Juno". Lembro-me de o ir ver algo contrafeito e céptico. Um filme sobre uma adolescente que engravida e subsequentes problemas não me pareceram apelativos. Todavia, estava errado e o filme saiu-me uma interessante obra cinematográfica, cheia de humor inteligente, mesmo não se tratando de uma comédia.
Como tal, este "Up In The Air" apareceu revestido de algum interesse, já para não falar da meia dúzia de nomeações para Óscar que teve, e das críticas altamente favoráveis, considerando-o superior aos dois filmes anteriores. Portanto, quis ver.
Porém, todavia, contudo...houve ali qualquer coisa que faltou. O tal "click" que (me) puxa para dentro de um filme. É um excelente filme sim, com muito humor à mistura e, acima de tudo, muita ironia. Os actores fazem um trabalho excepcional, todos eles, em especial Clooney e Farmiga. A história é bastante inovadora e original, a banda sonora é muito boa, etc etc....mas há qualquer coisa que...enfim.
Talvez a experiência de ver um filme varie muito consoante o estado de espírito, ou a vontade do dia escolhido, não sei. Mas sei que, mesmo sendo um bom filme, não pude deixar de olhar para o relógio a determinado momento. Pareceu-me ter pouco sumo. O percurso da personagem de Clooney é algo previsível e só não podemos dizer o mesmo do fim do filme porque o mesmo é deixado completamente em aberto. Aliás é essa a parte mais interessante: o final é o fim (passe o pleonasmo), o círculo narrativo fica fechado. Quanto ao destino da personagem de Clooney...bom, fica praticamente ao critério e à interpretação que cada um de nós queira fazer: final feliz, ou final menos feliz, agora escolha. Interessante, mas precisava de mais. Em suma: um bom filme (e filme com F grande, não é uma fita de Domingo à tarde), mas parece-me ter sido sobrevalorizado.
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Já com "Shutter Island" estamos a falar de um campeonato diferente. Aqui a ordem foi a inversa. O trailer não me impressionou por aí além. Pareceu-me uma espécie de filme de terror misturado com uma trama policial, algo batido, não sei. Porém, a curiosidade manteve-se. E depois da crÍtIca mais que posItIva e do desafIo lançado, concordei em vê-lo de seguida, até porque o "Up In The Air" tinha deixado algo a desejar.
E não é que o filme me prendeu em absoluto logo nos primeiros 5 minutos? Tudo, desde as imagens, a fotografia, a banda sonora absolutamente fantástica, o tom geral de mistério e intriga, tudo, me transportou para aquela ilha fictícia ao largo de Boston.
É um filme definitivamente pesado. No sentido de tenso, nervoso e altamente labiríntico.
Verão de 1954. O marshall Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e o seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) são enviados para o Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, na ilha Shutter, onde estão internados os mais perversos criminosos do país. O caso prende-se com Rachel Solando, uma perigosa assassina em série que desapareceu inexplicavelmente da sua cela e cuja única pista parece ser uma folha de papel com uma pergunta indecifrável.
Os médicos, funcionários e enfermeiras da instituição não parecem empenhados em cooperar com a investigação e há algo de particularmente misterioso com Dr. Cawley (Ben Kingsley), o director do hospital. Com um furacão a aproximar-se, rodeados por um ambiente psicótico e pacientes perigosos, ambos percebem que as suas vidas estão em risco e que podem não conseguir sair vivos desta ilha maldita.
Realizado por Martin Scorsese, é baseado na obra "Paciente 67" de Dennis Lehane (também autor de "Mystic River", adaptado para cinema por Clint Eastwood em 2003).
Ora, dito assim, parece que estamos perante um filme policial com laivos de thriller psicológico, como tantos outros. E mesmo que fosse só isso, muito bom seria o filme. Felizmente, vai além disso. Para onde? Não se percebe bem. Estamos tão perdidos e desorientados como o marshall Daniels. E o segredo para melhor apreciar o filme é simplesmente deixar-nos ir, deixar que o filme lentamente nos puxe para a areia movediça sem grandes estrebuchos, crentes que a "salvação" chegará no fim. O que Scorcese nos apresenta é assim um pesadelo labiríntico uma espiral cada vez mais desorientante que, mais do que ser cempreendida pede que seja aceite. E é por esse caminho íngreme, o da progressiva desconstrução da realidade que ele nos conduz, até começarmos a duvidar de tudo, tal como acontece a Teddy Daniels. A personagem e o público estão juntos na busca pela verdade e no lento e doloroso processo de descoberta, mesmo que seja o público que, em princípio, mais facilmente adivinhará o que se está a passar (alguma bagagem cinéfila estraga a surpresa, é verdade), fruto de uma série de pistas e indícios que se espalham pelo filme. Ainda assim, o final reserva uma surpresa, mesmo para os mais "videntes".
Sair da sala depois de ver este filme é comparável a ter acabado de acordar de um sonho perturbador, não necessariamente um pesadelo, mas um sonho intenso (e tenso), respira-se fundo e tentamos relembrar as imagens que passaram nesse sonho, tentando encontrar um fio condutor.
Um grande, fantástico, excelente filme.