A Liga dos Cavaleiros Extraordinários já foi adaptada ao cinema duma forma terrivelmente desastrosa a meu ver. Está certo que os livros são extremamente complexos e pejados de uma quantidade alucinante de referências históricas e literárias, o que tornaria difícil uma adaptação boa, mas a que foi efectivamente feita foi terrível. Mas adiante.
No caso do "V for Vendetta", a adaptação está soberba e não deixa nada a desejar. Sim, alguns personagens não constam, e alguns aspectos do argumento foram alterados...mas isso em nada prejudica a história.
E é aqui, na história, que reside o mais interessante do filme. Sim, há violência e acção a rodos, mas são bastante secundários. Surpreendentemente o realizador conseguiu resistir à tentação oferecida por uma história deste género e não pôs o enfâse nos efeitos especiais, mas sim na história e personagens. Como li algures: não se trata dum filme de acção, mas sim dum filme com muita acção. Mais ou menos como o primeiro 'Matrix': uma boa história e personagens servida por muita acção. Nada a ver com as sequelas deste: muita acção e pouca história.
E a história diz respeito directamente à condição humana, às ideias e ideologias que comandam o Homem, tanto do seu interior, como do exterior. Diz respeito à dignidade e respeito pelo ser humano, diz respeito à liberdade e luta pelos direitos de cada um e de todos. Diz respeito, no fundo, à luta contra o medo. O medo de tudo que tomou conta da sociedade e a consequente desresponsabilização do indivíduo até à sua quase anulação.
Na linha do "1984", "Admirável Mundo Novo", "Equilibrium", e "Nós", temos a história dum indivíduo que luta contra um sistema organizado e imposto pela força. Pergunto-me se alguém terá apreciado a ironia de ver o John Hurt a desempenhar o papel de ditador máximo, anos depois de ter desempenhado o papel do indivíduo lutador e oprimido no "1984".
Há quem se tenha mostrado chocado como, nos dias de hoje, um filme tem como (anti-) herói um 'terrorista' e 'fora-da-lei' que pretende explodir o edifício do Parlamento Britânico. Mas não vejo que haja justificação no filme, pois aí os verdadeiros terroristas são os detentores do poder que conseguiram 'implodir' com os direitos e liberdades individuais da população. Daí surge a personagem 'V', como um símbolo de justiça, como um símbolo de união e de propósito por alguma coisa maior e melhor. Tal como é dito, não é o povo que deve temer os seus governantes, mas sim os governantes que devem temer o povo. Precisamente por ele ser um símbolo é que nunca se sabe realmente quem é o 'homem' por detrás da máscara, apesar de vários indícios deixarem muita latitude ao espectador para construir a sua teoria. Nunca se sabe, nem é necessário saber. O verdadeiro herói do filme não é 'V', mas sim os seus ideais.
Um filme politicamente cliché ou utópico? Talvez, mas a ideia é válida e actual. O filme chega até a ser assustador quando (passa-se no futuro, depois da III Guerra Mundial provocada pelos EUA) certos aspectos do seu passado apresentam muitas semelhanças com o nosso presente.
Um bom filme sim senhor que promete muito e cumpre muito. E finalmente aprendi quem diabo era o Guy Fawkes, que no século XVII tentou precisamente explodir o Parlamento inglês em resposta às perseguições que a Coroa fazia aos Católicos. Ainda hoje o dia 5 de Novembro é feriado no Reino Unido em comemoração do falhanço dessa tentativa. Mas como alguém escreveu: perguntem às pessoas que se reúnem todas as noites de 5 de Novembro à volta das fogueiras e do fogo de artifício (é a chamada 'bonfire night') o que estão a comemorar. Se o falhanço da tentativa se o facto de ter havido alguém que tentou.
Remember remember the fifth of November
Gunpowder, treason and plot.
I see no reason why gunpowder, treason
Should ever be forgot...

