
Lá fomos então ao
Doc Lisboa ver o documentário sobre os
Heróis do Mar. Realmente há muita gente neste país. Ou então a cultura está na moda! O átrio da
Culturgest estava apinhado de gente e não era porque estava a chover a potes. Havia uma fila enorme para comprar bilhete, embora não tenha a certeza que fosse para o
"Brava Dança", pois parece-me que os bilhetes já estavam esgotados há uns dias. Ainda bem que a Maria foi lá com muita antecedência.
Enfim, antes de mais, foi um ambiente algo inusitado, cheio de caras conhecidas (quer dizer, só reparei no Rodrigo Leão e no Nuno Lopes e, claro está, nos Heróis do Mar
themselves, mas devia haver mais) e bastante '
fashionable', não num sentido pejorativo.
O Grande Auditório da Culturgest ficou cheio naturalmente. A nós bastou-nos entrar 10 minutos antes para conseguir lugares óptimos, claro que o restante pessoal levou mais tempo a entrar, atrasando o início, como já é da praxe para indignação da
avózinha sentada ao meu lado.
Atrás de nós estava uma fila reservada para, como viémos a descobrir, os elementos da banda e familiares. Na verdade só o Pedro Aires de Magalhães, o Carlos Maria Trindade e o Rui Pregal da Cunha estiveram aí sentados. O Paulo Pedro Gonçalves não veio, ainda deve viver em Londres e pareceu-nos ver o António José Almeida (o primeiro a sair da banda e o único que se desligou da música) sentado noutro lado do auditório (será que não se falam? No documentário ele deu a entender que se 'fartou'...).
Bom, o primeiro a chegar, atraindo muuuuuuita atenção foi o Rui Pregal da Cunha, no seu, digamos assim, estilo inimitável.
Posto isto iniciou-se a sessão com algumas palavras dos realizadores e do produtor franciú que nos fez o favor de avisar da festa no Lux pós visionamento do doc (pois, pois, já lá vamos).

O documentário em si tinha bastante piada, e as entrevistas descontraídas e as histórias que os entrevistados iam contando eram muito divertidas. A declaração de intenções que citei no outro post está correcta. Não só se trata de contar a história dos Heróis do Mar, mas também a de Portugal, pré e principalmente pós 25 de Abril. As mentalidades, cultura, opiniões e sistemas de pensamento existentes na altura e os quais os Heróis do Mar foram os primeiros a desafiar radical, agressiva e ostensivamente (o nome "Raça" chegou a ser pensado para a banda). Foram dos primeiros a construirem um conceito estético e imagético que passava não só pela música, mas também pela imagem, pelas roupas, e pelo simbolismo da Portugalidade.
As suas actuações fizeram correr tinta. As palavras, suas conotações e uma fortíssima imagem dominada por fardas e pela presença da cruz de Cristo valeram-lhes críticas, conotando-os abusivamente com ideais "fascistas". Preconceito que ainda hoje existe. Menos, mas existe.
Mariquices à parte, a verdade é que a relevância desta banda na música portuguesa é inegável. O conceito inicial, de tão violento e provocador, teve de ser 'amaciado', caso contrário, canções como
"Saudade" ter-se-iam chamado "
Marchar Sobre Lisboa". Os tempos eram outros, era certamente mais difícil singrar no mundo da música, ainda mais quando se tinha um conceito e

ideais tão definidos. Seja como for, saber que os 'hits' dos Heróis foram compostos em horas e 'atirados' para a editora, do género "Vá, tomem lá um single comercial", deixou-me algo perplexo.
"Paixão" foi escrita precisamente para as pistas de dança, porque não havia música portuguesa nesse âmbito. Tem piada que ainda são os Heróis do Mar os mais tocados nessas discotecas.
Enfim, é um documentário interessante, mas, para ser curto e grosso, acho que 1h20 é demasiado tempo se comparado com a informação a que temos acesso. Parece-me que na tentativa de contar não só a história de uma banda mas também a de um país e a de uma época, o documentário acaba por ficar algo aquém. Talvez tenha tentado abarcar demasiado, não sei. Fica-se com a chamada 'panorâmica geral' daquela altura, da perspectiva dos Heróis do Mar e dos próximos a eles. Teria piada ver entrevistas de outros músicos (só o Zé Leonel ex-Xutos é pouco!) que mostrassem a sua perspectiva, a sua opinião acerca dos Heróis.
Mas pronto, não se pode ter tudo. E só a recolha de material (arqueológico) já é de si impressionante!
No fim: aplausos generalizados. A avózinha do meu lado participou activamente soltando uns 'uh-uhs' ferroviários. LOL