Quem me conhece sabe que eu não sou propriamente aquele tipo de gajo que vá a correr ver um filme a preto e branco, apesar de gostar muito de cinema. Pois não sou, não. Mas ontem fui ver um.
Quem me conhece sabe também que eu não costumo embarcar nas histórias de "É a melhor música do Mundo", "O melhor livro jamais escrito" ou "O mais bonito filme da história do cinema". É que não sou mesmo. Mas tenho de confessar que ontem vi um filme que é provavelmente o mais bonito do Mundo sim senhor. "Aurora". Ou no original: "Sunrise - A Tale of Two Humans".
O filme foi realizado por F.W.Murnau em 1927 e é uma obra artística plena de força, emoção, poesia e de um sentido de pathos e catarsis próprio das tragédias gregas. O que, no entanto, não faz dele uma tragédia ou um drama; bem pelo contrário: está repleto de momentos e grande humor e boa disposição, bem como momentos mais ternos e 'amorosos'. No fundo durante os 110 minutos o filme 'obriga-nos' a atravessar uma vasta gama de sentimentos. E digo 'obriga-nos' porque somos de tal maneira absorvidos pela história que não conseguimos fazer mais nada a não ser concentramo-nos no que vemos e aproveitar ao máximo.
A história em si é simples: um casal de camponeses vê a sua vida conjugal ameaçada quando uma maléfica 'mulher da cidade', de férias na aldeia, 'enfeitiça' o camponês e tenta-o a abandonar tudo e a fugir com ela para a cidade. Mesmo que para isso a esposa tenha de sofrer um qualquer acidente...a partir daqui desenvolve-se o filme em todo o seu esplendor. Durante o mesmo é impossível não ficar desesperado, não ter medo, não chorar, não rir e não ficar aliviado e enternecido. Nunca se sabe realmente o que vai acontecer, e a certo momento o filme é muito negro e assustador.
É um filme que usa inteligentemente as virtudes únicas do cinema mudo para criar uma ideia, um ambiente, uma sensação, 'algo' que fica conosco depois de termos visto o filme.É bem possível que este seja o filme mudo por excelência, a obra-prima, porque é ainda 'mais mudo' que os outros. Mas apenas em termos de palavras, não em termos de sentimentos. Assim, utiliza os normais 'cartões de diálogo' que se vêem em qq filme mudo, mas esses cartões são pouquíssimos, e os poucos que há acabam por fazer parte integrante do filme (basta ver que quando a mulher da cidade sugere ao camponês que afogue a esposa, as letras do cartão tb se 'afogam', animadas como se estivessem a escorrer pelo ecrã.)
Mas, de facto, uma das coisas que ressalta deste filme é a parca utilização desses cartões. É que pura e simplesmente não é necessário. Tudo, mas tudo, consegue ser contado ou transmitido pelas acções e pelas geniais actuações corporais e faciais dos actores.
Janet Gaynor, a actriz que desempenha o papel da esposa mostra toda uma série de sentimentos apenas com a expressão da cara. De tal maneira que parece que estamos a 'ouvir' o que ela está a pensar e os sentimentos que lhe estão a atravessar a alma. Assim, qdo ela está no barco à espera do marido para um passeio (o 'tal' passeio...) vê-se que ela começa a ter dúvidas em relação ao marido, depois vem o medo e a vontade de sair do barco antes que ele regresse, mas acaba por vir o apaziguamento e o afastar do medo....para depois regressar sob a forma de horror e desepero. Ganhou o Óscar por este filme.
George O'Brien, o actor que desempenha o camponês consegue mudar de um jovial e alegre calmeirão para um homem atormentado, enfeitiçado, cuja alma está possuída (sim, a tal mulher da cidade não é mais do que um Diabo tentador). Alguém realmente assustador.
Tudo isto apenas com a expressão facial. Se isto não é ACTUAR, então não sei que seja. O supérfluo cortado, sobra o essencial em toda a sua pureza. O que é um tributo ao talento de Murnau como contador d histórias. Contar uma história se som é o que todos os filmes mudos fazem. Mas contar uma história sem diálogos é algo muito mais difícil.

A música que acompanha a acção também é fundamental na criação de todos estes ambientes. Percebe-se agora porque é que o sub título do filme é "A Song Of Two Humans". É de facto uma canção, e é sobre 'dois humanos', realçando o facto de nenhum personagem ter nome, uma vez que o filme, a temática do filme é intemporal. É uma canção sobre um tema pouco original sim, mas o modo de a 'cantar/contar' é que é extremamente único e fica conosco como uma grande e memorável canção. Por isso é que o próprio filme é ainda hoje actual.
É preciso ainda referir que se trata dum filme cheio de simbolismos, mas não tão óbvios como poderiam parecer á partida: assim, se a cidade é mostrada como um sítio mau e tentador, também é verdade que é a cidade que junta novamente os dois 'humanos'. O campo, apresentado de forma idealizada e idílica, é também um sítio onde se tem de enfrentar a natureza sózinho com todos os perigos que isso comporta.
Enfim, um filme ainda hoje actualíssimo e absolutamente nada datado, nem em termos de história, nem em termos de técnicas cinematográficas. Basta ver a quantidade de 'efeitos especiais' utilizados: sobreposições de imagens, a utilização dos primeiros 'flashbacks', as imagens da cidade, etc etc. Aliás, a imagem da cidade propriamente dita é algo que ainda faria hoje sombra a qualquer das tão famosas cidades do Tim Burton.
Ainda bem que fui ver.