Um disco muito bom, não só pelo que contém, mas também, e principalmente, pela recordação que me traz à memória da noite de 14 de Março de 2002 em que o Paradise Garage foi uma das paragens da digressão acústica e a solo do vocalista dos dEUS. Uma noite para recordar mesmo tendo ido sózinho. Mas rapidamente isso deixou de interessar assim que o público foi 'mergulhado' por completo nas simples, porém belíssimas roupagens das várias canções.
Foi um Paradise Garage cheio, metade com cadeiras, metade, ou talvez mais, em pé que teve o privilégio de assistir a um concerto memorável (pelo menos para mim) em que a intimidade e a comunicação com a audiência foram elevadas a níveis que nunca antes vi, ou voltei a ver. Parecia mais um grupo de amigos do que um concerto propriamente dito. Segundo o músico belga, os presentes deviam acender um cigarro, beber um “whisky”, desligar o telemóvel e relaxar. Isto porque este seria o ambiente mais propício para a audição das “canções tristes” (as palavras são de Barman) que iria apresentar. Com o passar dos minutos, Barman foi-se revelando um bom contador de histórias. Dotado de um humor sarcástico, sempre à espreita, o músico ali esteve durante uma hora e meia, acompanhado pelo seu amigo pianista de Antuérpia, na Bélgica, cidade natal dos dEUS, um rapaz de ar colegial que dá pelo nome de Guy Van Nueten.
Barman, umas vezes só com a sua guitarra, outras com o piano de Van Neuten, foi percorrendo várias canções e várias influências, desde Nick Drake, JJ Cale, David Bowie, Serge Gainsbourg, Captain Beefheart, Violent Femmes entre outros. Canções de dEUS também, que aqui surgiram despidas de toda a electricidade e distorção, revelando toda a sua alma.
Pelo meio houve um momento alto e divertido: uma pausa forçada, daquelas que servem apenas para simular a entrada do encore (já programado no alinhamento que os músicos levam para o palco). Barman e o seu amigo Guy ficaram sentados atrás do palco, de pernas esticadas. Barman acendeu outro cigarro e ali esperaram um minuto para voltarem, no meio da risota geral, dado o ridículo da situação. Tom Barman afirmou ter-se inspirado nos Morphine para aquele apontamento de humor. A banda norte-americana costumava parodiar à volta do assunto “encore forçado” e fazia questão de ficar em palco enquanto o público aplaudia para pedir à banda que voltasse, em vez de recolher aos bastidores .
Foi um concerto genial, descomprometido e descomplexado, ideal para relaxar e saborear as canções que desfilavam perante nós. Já ouvi o disco e, como é natural, não consegue capturar nem pouco mais ou menos, o espírito daquela noite. Mas não faz mal...não é isso que se exige também.
Mais informações sobre esta noite neste site, de onde retirei algumas citações:
http://www.voxpop.pt/noticias/ficha.asp?id=98C83202-052C-4F7E-A723-07510C366643
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