Quanto ao “Ghost World” a história é algo diferente. É bastante surpreendente, pelo menos para alguém, como eu, que não conhecia a banda-desenhada na qual o filme é baseado. Se quiserem um termo de comparação pensem no filme “American Splendor”, também ele baseado (mais ou menos) numa banda desenhada. Ambas retratam personagens normais no seu dia a dia a lidarem com os respectivos problemas e crises. A diferença está no facto de, enquanto o “American Splendor” se basear na vida do criador da BD e, como tal, apenas indirectamente na BD, o “Ghost World” baseia-se na história propriamente dita, tal como foi escrita pelo Daniel Clowes. Nunca li, apesar de estar disponível por cá pela Devir, mas parece que é uma adaptação bastante fiel. Até os actores escolhidos parecem perfeitos: Thora Birch (a filha do Kevin Spacey no “American Beauty”), a Scarlett Johanssen (num dos seus primeiros papéis, com 15 anos!) e o grande Steve Buscemi.É um filme com adolescentes, mas não é definitivamente para adolescentes, ou apenas para adolescentes. Os que o são podem, se calhar, comungar de muito do espírito do filme, os que o já foram podem perfeitamente recordar esse espírito. No fundo é um filme que acaba por retratar um sentimento cada vez mais comum num mundo cada vez mais padronizado e formatado, e, como tal, pode ser apreciado por qualquer um, novo ou velho.
O filme começa quando as duas personagens, Enid (Thora) e Rebecca (Scarlett) acabam o liceu, sendo confrontadas então com as inevitáveis escolhas de vida. Ambas sempre se mantiveram outsiders a todo o sistema liceal, mas agora que isso acabou é hora de ‘crescer’, e a forma como cada uma delas o faz é que dá o tom ao filme.Enquanto Enid pretende manter esse carácter outsider buscando sempre outras pessoas, freaks ou não, que também o sejam, Rebecca entra na ‘engrenagem’. A partir daqui começamos a ver a forma como as duas amigas progressivamente se afastam dada a grande diferença de vidas que ambas ambicionam. Enid sente-se algo perdida num mundo de plástico e de farsa em que todos sorriem mesmo não estando felizes, consequentemente sabe o que não quer, mas é difícil discernir o que quer efectivamente. Rebecca, entetanto parece que se ‘vendeu’ ao sistema, preocupando-se em arranjar casa, trabalhar e decorar o apartamento. Contar mais do filme significaria estragar de todo em todo a agradável experiência que é vê-lo, por isso o melhor é não contar mais. Mas vale a pena, pela história e pelas actuações. E pelo humor. Um humor bastante sarcástico e cáustico, que sempre aligeira as ‘crises de identidade’ porque Enid passa.
O cerne do filme diz respeito às pessoas que se esforçam para serem normais, para se integrarem, muitas vezes à custa da sua própria personalidade e muitas vezes anulando-se mesmo. Enid faz um esforço sobre-humano para se tentar ‘integrar’ no que a rodeia, o que só lhe traz mais problemas do que os que tinha quando era uma simples ‘outsider. Será essa a ‘mensagem’ do filme (diabo....já meto nojo com estas pretensões)....seja qual for a decisão que uma pessoa tome, não importa se é certa para os outros ou errada, importa sim que seja a que nos faça feliz. Portanto, não é errada a decisão de Rebecca em entrar na engrenagem, pois é essa a decisão que a faz feliz e é assim que consegue perseguir o SEU sonho de infância.
Portanto, nem se condena a decisão de Rebecca nem a decisão (final) de Enid. E não se devem condenar uma vez que são decisões verdadeiras tomadas em respeito por elas próprias e em respeito pelas suas aspirações. O que sim se condena são as pessoas que desistem de si mesmas num esforço anulatório de integração e 'normalidade'. Mais do que a decisão em si, o que conta é como é tomada e onde nos leva.
Bláblábláblábláblá....parabéns a quem ainda estiver a ler e tenha conseguido chegar a este ponto. É que até eu vou ter de parar pois já me estou a sentir algo agoniado com tantos lugares-comuns e disparatagem pomposa em geral.

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