Ora o Sr. Luandino Vieira, que há 15 anos vive desterrado por opção própria e quase isolado na região minhota recusou o prémio. É verdade. Que ousadia, que rebelde. E naquela idade, ó meu Deus.
Os jornais encheram-se de casos similares, de recusas famosas de prémios e galardões e começou a falar-se do feitio isolado e fechado do escritor, do seu carácter quasi eremita, do seu terror da celebridade e de ter as atenções sobre si. Falou-se inclusivamente no facto de ele preferir andar pelos campos a falar com os passarinhos (sic) e a apascentar rebanhos de ovelhas. Falou-se da sua recusa determinada de contactar com o mundo literário e jornalístico. Em suma: era mais um daqueles artistas alucinados. Um freak. Um intelectual. Whatever.
Só ontem soube da história completa. Assim, o Luandino Vieira não publicava nada de novo há quase 34 anos!!! Portanto a pergunta é: porque diabo atribuir-lhe um prémio??? Se é inegável a sua contribuição para o mundo literário (eu confesso a minha ignorância) porquê esperar tantos anos para o distinguir?
A resposta é equívoca, mas parece que Luandino entregou finalmente ao seu editor, após mais de três décadas, um novo livro. Ora...sendo assim, não seria melhor ter guardado esta distinção para o ano? E assim evitar esta situação embaraçosa? É que o prémio veio cedo demais (ou tarde demais, conforme a perspectiva) e o próprio Luandino já tinha afirmado em raras declarações anteriores que não aceitaria o prémio pois não tinha escrito nada há anos. Como oficialmente ainda não o fez, era de esperar que, congruentemente, mantivesse a sua recusa.
Ou seja, o que parecia um caso de modéstia, falsa ou não, ou um caso de terror mediático, ou aversão à sociedade, mais não é do que uma reacção normalíssima de alguém suficientemente lúcido para recusar uma distinção quando nada fez para a merecer. Só lhe ficou bem.

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