O “Somewhere In Time”(SIT) foi lançado em 1986 e foi o sexto álbum dos Iron Maiden. Foi lançado no auge da carreira da banda. Juntamente com o anterior “Powerslave” e com o seguinte “Seventh Son of a Seventh Son”, forma a trilogia de álbuns considerada a época áurea dos Iron Maiden, a ‘Golden Era’. E é plenamente justificada, a meu ver.
O “Powerslave” tinha dado origem a uma monstruosa tour mundial que se prolongou por 13 meses e também a um álbum ao vivo (o “Live After Death”, gravado numa das 3 noites em que a banda encheu o Long Beach Arena), ainda hoje considerado um dos seminais álbuns ao vivo. De toda esta comoção não é de estranhar que a banda tenha saído naturalmente exausta e exaurida.
E desse cansaço todo resultou também uma necessidade natural de abrandar o ritmo e mudar um pouco a fórmula. O sucesso permitiu à banda a possibilidade de, pela primeira vez, parar para descansar e pensar o próximo álbum com mais calma. Permitiu-lhes também gastar mais dinheiro na sua preparação, elaboração e gravação.
Portanto foi nestas condições que os Iron Maiden iniciaram a produção de um dos seus melhores e mais arriscados álbuns de sempre. E também dos que mais sucesso teve.
Do stress caótico que agora acabava, emergiu uma banda diferente, mais sábia, talvez mais adulta e com vontade de trabalhar, mais para si mesmos como músicos, do para os outros. Mais do que tentar agradar apenas e só, desta vez tentaram mudar e evoluir.
Anteriormente, o ritmo álbum-tour-álbum não permitia uma grande margem de manobra. Desta vez tiveram tempo para se demorarem em todos os pormenores e perfeccionismos, e também tempo para experimentar as novas tecnologias. É este álbum, com efeito, que abre as portas ao uso de outros instrumentos e ferramentas para além das tradicionais. É agora que surgem as primeiras aparições dos
sintetizadores de guitarra e baixo com os quais os dois guitarristas da banda andavam a experimentar. Toda uma vasta gama de sons que antes só se poderiam obter com um teclado eram agora possíveis de conseguir com uma guitarra. O que deu algum jeito sendo os Maiden uma banda abertamente ‘anti-teclados’ na altura. No entanto o uso destes sintetizadores é sempre feito com ponderação, não sendo de forma alguma exagerado.
Este facto deu uma nova direcção à banda e alterou substancialmente o
som típico dos Maiden. O som das guitarras sintetizadas dava toda uma nova textura e profundidade à música, um efeito mais gelado e ‘dark’, mas bastante orgânico ainda assim. Digamos que está em perfeita consonância e adequação a todo o ‘suposto’ conceito do álbum, tanto a nível musical como a nível de artwork (capa e fotos inclusas). Dava um ar muito mais ‘hi-tech’ do que qualquer outro dos álbuns.
Toda esta nova abordagem ao processo criativo: mais dinheiro, mais tempo, mais tecnologia, fez com que o SIT fosse o álbum mais caro que tinham feito até à data. Mas compensou, uma vez que foi dos que mais sucesso teve, e ainda hoje é um dos preferidos de vários fãs (eu incluído).
Inexplicavelmente, hoje é um dos álbuns mais ignorados pela banda
ao vivo. Diz-se que o Steve Harris já não gosta dele, que está datado, que as canções não funcionam bem ao vivo, que o Bruce Dickinson nunca gostou dele (talvez por não ter nenhuma canção composta por ele), e diz-se até que o Adrian Smith chegou mesmo a ‘esquecer’ como se toca o “Alexander The Great”! Alguma razão justificará o facto de apenas o “Heaven Can Wait” ter sobrevivido com alguma constância nas setlists. Espero, porém, que esta situação seja algo corrigida na próxima digressão ‘histórica’ dos Maiden, a qual, se realmente acontecer, se debruçará precisamente sobre estes 3 álbuns da ‘era dourada’.
Mas isso é o futuro. No passado o que é certo é que o SIT teve um sucesso impressionante, chegando a n.º 2 nos tops britânicos, tendo vendido milhares de cópias só nos EUA e chegado a dupla platina. 
Os dois primeiros singles, “Wasted Years” e “Stranger In A Strange Land” também foram responsáveis por este sucesso meteórico. Ambas as canções, sem perderem as características típicas de Maiden: coros memoráveis e épicos, bateira e baixo tonitruantes e duas guitarras selvaticamente melódicas e em harmonia, mostraram ao mesmo tempo uma banda diferente, mais ‘pop’, mais ‘comercial’ se assim se pode dizer. O que naturalmente agradou às audiências que acorreram em massa à “Somewhere On Tour”, digressão do álbum, bem mais pequena que a anterior, claro.
Ambos os singles foram compostos pelo Adrian Smith. Aliás, quase que se pode dizer que este é O álbum do Adrian Smith. A contribuição dele para todo o álbum é maior do que em qualquer outro. Todas as canções têm um feeling diferente, mais ‘orelhudo’ e memorável. Não é à toa que a banda, quando ele saiu em 1990, perdeu muito desse feeling que dava às canções um toque especial. Mais do que um excelente guitarrista perderam um compositor genial cujo contributo, mesmo parecendo pequeno, era (e é) essencial para dar à banda o som que sempre a distinguiu e que se revelou algo inatingível com o Janick Gers.
De facto são as canções compostas pelo Adrian que acabam por dar o tom ao álbum, sem desmerecimento das restantes, claro. A “Wasted Years”, “Stranger In A Strange Land” e a “Sea of Madness” são diferentes do habitual, pois em todas elas pontua com grande evidência o sintetizador e um sentimento mais rock’n’roll.
O álbum parece ter um fio condutor, embora não tenha sido intencional. Assim, parece que o
“Somewhere In Time” aborda questões relacionadas com o tempo e espaço, e o modo como cada um de nós (e eles próprios) lidamos com esses factores. Segundo o Steve Harris, talvez esse ‘tema’ tenha surgido inconscientemente após a extensa e cansativa tour mundial anterior, que tanto tempo durou e por tantos lugares passou. Canções como “Caught Somewhere In Time”, “Sea Of Madness”, “The Loneliness Of The Long Distance Runner”, “Dejá Vu” e mais claramente a “Wasted Years”, são prova mais do que suficiente de que se trata duma forma encontrada pela banda para exorcizar ou descomprimir das tensões por que passaram e dos sentimentos que atravessaram nessa altura.
São um retrato mais ou menos fiel de alguém que se encontra numa viagem muito longa, passando por vários sítios a grande velocidade (“from the coast of gold, across the seven seas/I’m travellin’ on far and wide(...)I close my eyes and think of home/Another city goes by in the night”), por vezes lutando contra a solidão ("The Loneliness Of The Long Distance Runner"), mas nunca podendo parar nessa viagem (“I’ve got to keep running the course/I’ve got to keep running and win at all costs/I’ve got to keep going be strong/Must be so determined and push myself on”), por vezes tendo sentimentos de repetição constante (“feels like I’ve been here before (…) you know when you feel deja vu”), provocando uma sensação de estranheza no Mundo (“Stranger In A Strange Land”) num verdadeiro mar de loucura e agitação (“Sea Of Madness”).
É impossível falar deste álbum sem mencionar o impressionante artwork. A capa mostra um
Eddie ciborgue num ambiente futurístico reminiscente do filme “Blade Runner” (aliás um excerto da banda sonora deste filme, composta pelo Vangelis, foi utilizada como intro nos concertos da digressão). Mas o que impressiona nesta capa é o nível de pormenores e detalhes que se conseguem encontrar. É a melhor capa de um disco jamais feita na minha opinião. Olhando com atenção podemos encontrar para cima de 40 referências a outros álbuns, canções e referências em geral ao mundo dos Iron Maiden. O pintor, Derek Riggs atingiu um nível de profundidade estonteante e não é de admirar que uma das coisas que podemos encontrar bem escondidas é o seu desabafo: “This painting is boring”.
Em relação às canções, já muito foi dito. Queria
apenas sublinhar um ponto essencial e genial que é o facto de, se por um lado a temática de algumas canções diz respeito à banda e ás suas experiências e vida, por outro lado, estão escritas de forma suficientemente aberta para que cada um consiga ‘ler nas entrelinhas’ e sentir as canções como ‘suas’ também. A “Wasted Years” é um exemplo perfeito disso. Tendo sido escrita claramente para retratar as agruras da vida na estrada, pode ao mesmo tempo ser extrapolada para uma ‘estrada’ maior e para uma tour mais extensa....uma tour que todos nós fazemos. “So understand/Don’t waste your time always searching for those wasted years/Face up, make your stand/And realize your living in the golden years”. Parece-me que uma ‘mensagem’ destas será sempre válida. 
O início do álbum tornou-o num clássico e marca o tom futurista e novo que se seguirá pelo álbum fora. O “Caught Somewhere In Time” revela uma banda renovada e cheia de energia e força para nos mostrar a nova faceta. E prosseguem surpreendendo-nos de canção em canção, sendo que todas elas sem excepção podem ser consideradas verdadeiros clássicos. Termina em crescendo com o épico “Alexander The Great”, onde aprendemos mais nos 8 minutos que dura sobre a vida do Alexandre o Grande, do que nas quase 3 horas do filme do Oliver Stone. Que mais se pode querer?
Perfeito!

6 comentários:
Gonçalo, grande review do album!Parabéns.
Que mais posso dizer?Up the Irons!
cabriti here
Foda-se vai lá vai. Deves ter fritado os neuronios a escre ver isto tudo. Mas valeu apena. Tá muito boa.
PS:agora só falta falares do som da edição remaster he he he
XIIIIIIII que espet�culo, n�o � todos os fans, por mais aguerridos que sejam que conseguem este nivel de profundidade a escrever algo sobre um �lbum � necessario ter uma cultura a todos os niveis fora de serie e tambem um jeito sublime para transparecer sentimentos em palavras, Gon�alo �s um artista devias pensar em escrever um livro sobre os Maiden, podias quem sabe fazer melhor que o Mick Wall. Focas-te muito bem a influ�ncia que a world slavery tour teve no �lbum, eu tambem compartilho com a tua opini�o. Resumindo est� exelente foi a melhor revis�o que li sobre um �lbum de Maiden. Hoje j� disse isto ao Pedro e acho que voces, deviam era ir para a Loud, pois escrevem muito bem, n�o ficam nada atr�s dos jornalistas que l� est�o, a revista ficava a ganhar de certeza.
LOL
Obrigado Ricardo!
E obrigado Gustavo. Ehehe. Vamos deixar a questão do som das edições 'enhanced' para outra altura...
Obrigado Daniel também.
Não está assim tão boa como isso, como é natural, uma vez que não sou um profissional e falta-me uma certa capacidade de síntese...mas permiti-me expandir-me neste caso...sempre é um, senão O meu álbum preferido.
Obrigado!
Excelente review Gonçalo, e melhor ainda quando acompanhada pela musica do album em audição .... a edição original, claro está !!!
lol
Grande Review!
O álbum é daqueles Larger Than Life.Um ponto muito alto no Heavy Metal.
:)Seja a original seja a de 98
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