quarta-feira, outubro 29, 2008

Talvez o melhor filme que vi este ano.



Sim...quase de certeza o melhor filme que vi este ano. Desde que li o excelente livro "The Provos: The IRA and Sinn Fein" de Peter Taylor que o Rui me emprestou há anos (e que ando para comprar há algum tempo já) que fiquei interessado no Bobby Sands.
Membro do IRA Provisório ('Provos'), preso em Long Kesh ("The Maze") a prisão onde os "terroristas" eram encerrados, foi Sands quem, em 1981, organizou a segunda e mais radical greve de fome dos prisioneiros políticos do IRA, da qual resultou a morte dramática de 10 homens, na sequência dos "blanket protests" e "dirty protests”. A luta era a do reconhecimento de um estatuto especial dos prisioneiros do IRA, o estatuto de prisioneiros políticos que os distinguisse dos prisioneiros de delito comum. Foi daqui que resultou a famosa frase da Tatcher: "There is no such thing as political murder, political bombing or political violence. There is only criminal murder, criminal bombing and criminal violence. There will be no political status”.
O filme segue assim, os últimos 6 meses de vida de Sands na prisão. Mas para além disso, mostra
a barbárie a que os prisioneiros se sujeitaram quer por vontade própria (“blanket protest” porque se recusaram a vestir os uniformes normais, pelo que apenas tinham um cobertor a servir de roupa; “dirty protests” porque espalhavam os seus dejectos pelas paredes das celas), quer pela própria extrema violência e selvajaria a que eram submetidos pelos guardas prisionais.
Primeiro filme cinematográfico de Steve McQueen (não, não é esse!), mais conhecido pelas suas obras artísticas na fotografia e filme. Este é o seu primeiro filme de lançamento comercial. Segundo o senhor que fez uma pequena introdução antes da projecção (não se apresentou, mas deve ser da organização do Doc Lisboa), a boa notícia é que este filme, se bem percebi, irá ser distribuído comercialmente em Portugal.
Quanto à obra em si, é filmada com uma beleza extraordinária e desarmante. Mesmo as cenas intensas de violência (muito intensas) são filmadas de maneira fantástica e quase apelativa. De uma maneira que nos faz querer desviar os olhos por serem imagens tão fortes (e houve quem não conseguisse de facto), mas ao mesmo tempo olhar e ver a maneira simples como elas nos são transmitidas.
Aliás, é essa a palavra chave do filme: simplicidade. O expoente máximo e belo do less is more. É um filme verdadeiramente épico, grandioso, uma odisseia trágica. Mas filmado com recurso ao mínimo essencial. Não há qualquer tipo de excesso, mesmo as imagens de maior violência são contidas e reduzidas ao essencial. Não há "gordura" neste filme, salvo seja e com o devido respeito.
Bobby Sands aparece-nos pela primeira vez quando é forçado a sair da cela para ser lavado e barbeado à força. O facto de esta ser uma das cenas mais violentas do filme diz muito sobre a habilidade cirúrgica do realizador em mostrar apenas aquilo que interessa, aquilo que é essencial à história. Nada de violência gratuita, apenas a dura realidade, mostrada sem reservas ou segundas intenções. E é esta dura realidade, o saber que "assim aconteceu" que custa mais ao espectador.
O filme, se assim se quiser, pode ser dividido em três partes. A primeira, mais genérica mostra a vida dos condenados nas celas, os espancamentos, a luta diária, a auto-organização, o contacto com o exterior. É a certa altura desta parte que entramos em contacto com Sands, o líder dos prisioneiros. A terceira parte acompanha os últimos dias de Sands, já no hospital, completamente debilitado. E é tão ou mais impressionante que as anteriores cenas de violência ver o estado a que ele chegou (pior ainda, o estado em que o actor se colocou para fazer aquele papel). Ambas são filmadas com uma beleza extrema e com recurso a pouco diálogo e a muito trabalho de câmara.
Ambas estas partes contrastam brutalmente com a peça central do filme, o momento mais
brilhante de um filme brilhante. Se antes e depois temos pouco diálogo, a câmara sempre em movimento e muita violência, física e psicológica, nesta peça central somos confrontados com o exacto oposto: a câmara está fixa, apontada a Bobby Sands e ao padre Dominic Moran sentados frente a frente numa mesa e a contra luz.
E diabos me levem se esta não é das melhores cenas em cinema que já vi, e estas não das melhores actuações que já vi. O diálogo é constante e sem pausas, em contraste com o resto do filme. Os primeiros minutos são estranhos. Ao ponto de inicialmente pensar que os actores estavam desconfortáveis, nervosos, pouco à vontade. Mas não eram os actores, mas sim as personagens que estavam nervosas e desconfortáveis. O tema de conversa era duro e difícil, e assim que finalmente as cartas são postas na mesa, o nervosismo desaparece e pode-se assistir a um diálogo fantástico, enquanto Sands defende os seus ideiais e a moralidade de uma greve da fome, para grande choque e tristeza do seu amigo. Esta é daquelas cenas que nunca se esquecem. Deixa-nos completamente absorvidos e pendurados em todas as palavras que são ditas. De tal maneira que, na altura nem se repara que se trata de um diálogo, de uma cena, fixa, de 20 minutos inteiros! Parecem 5 minutos de tão intensos.
Sim, é dos melhores filmes que vi este ano e nos últimos anos, sem dúvida nenhuma.







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