Bem, já há quase 5 anos que ando para ver este filme. Desde os tempos do saudoso Cine222. Aí esgotou, na televisão perdi-o, e as restantes exibições na Cinemateca foram sempre em dias em que não pude ir. Portanto fui construindo uma bela expectativa quanto a este filme. O que, talvez não tenha beneficiado muito o seu visionamento. Isso e o facto de ser às 22h00 depois de um dia agreste. Mas vamos por partes.
O que me despertou a curiosidade foi o facto de ser o filme do plano-sequência único. O filme de hora e meia feito todo de uma vez, num só take, sem cortes, nem montagens, nem nada. Tudo ali filmado na hora e momento. E em tempo real claro.
O filme tem centenas de actores, embora eu utilizaria antes o termo figurantes. Actores no verdadeiro sentido da palavra, temos dois: o narrador, supostamente o realizador, que nunca se vê uma vez que a câmara segue a perspectiva dele e um tal de "estrangeiro", aparentemente baseado num tal de Marquês de Custine, aristocrata françês que no século XVIII publicou um livro dando conta das suas viagens pela Rússia Czarista.
O que está efectivamente a acontecer não é claro. Mas deduz-se que tudo aquilo é uma espécie de sonho ou alucinação do realizador (há uma alusão a um acidente logo de início...portanto talvez ele esteja morto??), ou seja, acaba por ser uma história bastante onírica que, tal como os sonhos, nem sempre faz sentido. Assim, ambas as personagens passeiam por 33 salas do Palácio de Inverno de São Petersburgo, actualmente mais conhecido como o Museu Hermitage. Em cada uma das salas vão encontrando uma série de figuras históricas da Rússia, dando o mote para que se estabeleça o diálogo entre o narrador e o "estrangeiro", um diálogo sobre o papel da Rússia na história e, principalmente, sobre a sua posição enquanto país e Estado na Europa desde séculos e séculos. O "estrangeiro", françês, tece algumas críticas e considerações à Rússia, no plano político e, em especial no plano social e cultural,enquanto que o narrador, russo, tenta "defender" a sua cultura e herança. Eventualmente o "estrangeiro" acaba por reconhecer o valor da cultura russa, a qual deverá ser preservada para o futuro, aconteça o que acontecer. A ideia da "arca russa" parte daí mesmo, e é o Museu de Hermitage que funciona como a verdadeira arca russa, como o guardião da herança cultural da Rússia.
Durante a hora e meia do filme vemos, entre outras coisas, a apresentação de uma ópera na era de Catarina a Grande, uma cerimónia protocolar na corte do Czar Nicolau I, a vida idílica do Czar Nicolau II e da família, a mudança da guarda real do palácio, o director do Museu preocupado com a necessidade de fazer obras no Museu na era da Guerra Fria e um cidadão desesperado de Leninegrado ocupado a fazer caixões durante o cerco da cidade na Segunda Guerra Mundial.
Tudo isto passa à frente dos nossos olhos, e dos olhos do narrador, juntamente com uma série enorme de obras de arte expostas no Museu, que também dão azo a mais diálogos sobre a cultura russa. Tudo isto acompanhado por três orquestras ao vivo, que vão aparecendo ao longo da "viagem" dos personagens até atingirem o grandioso e majestoso clímax final num luxuriante grande baile com centenas de participantes, supostamente uma reconstituição do último Grande Baile que o Czar deu naquele Palácio, em 1913.
A cena do baile é justamente grandiosa. A maior das três orquestras interpreta músicas de Glinka, enquanto que largas dezenas de casais dançam alegremente e outras tantas centenas observam, conversam, riem, como em qualquer outra festa. A câmara continua a filmar sem um único corte, discorrendo livremente por entre os grupos de pessoas e por entre os casais dançarinos. E é sem dúvida um final grandiloquente e de se ficar sem fôlego. Até a cena final em que a câmara segue os convivas a saírem do palácio e a descerem a grandiosa escadaria é digna de nota, embora seja tão simples como isso: os convidados a abandonarem o salão. O narrador também sai sozinho (o 'estrangeiro' aparentemente ficou conquistado pela Rússia e informa-o/nos que vai "ficar"). A última cena mostra o edifício de tal maneira distorcido digitalmente que parece...uma arca.
É sem dúvida um regalo assistir aos 96 minutos de filmagem, saborear a progressão da câmara que é, no fundo, a nossa progressão pelas salas do Museu (li algures que esta é a visita guiada do Museu mais barata que há). As imagens, a fotografia, a música, o guarda roupa, tudo, mas tudo respira excelência e dá gosto ver e absorver. E nesse sentido é um filme maravilhoso, um prodígio da técnica e de cinematografia.
Mas pouco mais. A verdade é que o forte do filme reside realmente nesta parte mais técnica. Suponho que quem está por dentro das artes cinematográficas consiga apreciar e aproveitar ainda mais este filme; alguém que real e efectivamente consiga perceber total e realmente o que deve ter custado fazer este filme. Quanto a mim, consegui apreciar e admirar esse aspecto até onde pude, mas queria outras coisas mais, ou esperava outra coisa. Ou seja, não sei se ao longo do tempo fui construindo uma expectativa gigntesca em relação a este filme, mas a verdade é que, enquanto filme, enquanto uma obra que quer contar uma história, que quer transmitir alguma ideia ao espectador, devo confessar que é um pouco difícil de seguir. É um filme compassado e contemplativo, porém, nalguns momentos parece que começa a "correr", especialmente quando se encontra alguma daquelas personagens históricas. A ideia que dá é que se passa pouco tempo a observar estas personagenbs históricas e demasiado tempo a falar de pinturas e telas. Parece-me que com tanta majestosidade e luxo enquanto obra visual, acaba por faltar alguma coisa.
No entanto, lá está, enquanto obra visual e cinematográfica vale muito a pena ver e absorver. É, afinal de contas, uma obra única e histórica. Vale a pena realmente. Nem que seja pela curiosidade.
Trailer:
Ballroom scene:
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