quarta-feira, outubro 22, 2008

Burn After Reading

Acho que já o disse uma vez, mas não me importo de voltar a dizer: o "No Country For Old Men" é um bom filme e tal, mas sinceramente, não identifico esse filme com os irmãos Coen. Quando penso no Joel e Ethan Coen, penso no "Arizona Junior", no "Fargo", no "Big Lebowsky", no "Hudsucker Proxy", etc etc. E finalmente, com o "Burn After Reading".
O óbvio aconteceu. O sucesso de "No Country For Old Men", com tantos elogios, significados, interpretações, simbolismos e, claro, óscares, teve o efeito de "Burn After Reading" ter sido recebido como um filme menor, um filme de segunda linha, uma comédiazita em reacção à negritude do filme anterior. Errado. Não só o argumento já estava escrito ainda antes do "No Country..." estrar, como não se trata de um filme menor, e nem sequer de uma comédia. De facto, num certo sentido ou abordagem, até é um filme bastante triste. O que não quer dizer que não provoque algumas valentes gargalhadas.

Há um analista da CIA ( John Malkovich) que se prefere despedir a ser atirado para a prateleira, e que decide escrever as suas memórias reveladoras para fazer dinheiro, enquanto a esposa pediatra (Tilda Swinton) começa a pensar num divórcio para ficar com o dinheiro do casal e eventualmente amancebar-se com o amante, um "marshall" das Finanças (George Clooney) que é casado com uma autora de livros infantis mas dorme por fora com toda a saia que lhe apareça à frente. Uma cópia das memórias reveladoras cai por puro acaso nas mãos de um instrutor de ginásio burro como um calhau (Brad Pitt) e da sua sub-gerente (Frances McDormand) desesperada pelo dinheiro que lhe permita fazer a plástica do seu sonho, uma conversa telefónica origina um malentendido, o analista acha que estão a querer chantageá-lo e é uma questão de tempo até a comédia de enganos revelar a falta de comunicação, o egoísmo e a irresponsabilidade desta gente que quer tão desesperadamente perseguir os seus sonhos que não é capaz de parar para pensar no que está a fazer.
(in Cine Cartaz)

Um filme de pseudo-espionagem, um verdadeiro ensaio sobre a estupidez onde ninguém escapa, pois não há uma única personagem desinteressada.Todos os personagens são pessoas solitárias e confusas, mais ou menos estúpidas (o Brad Pitt é um verdadeiro tolinho e o George Clooney é daqueles burros estúpidos que se julga no controlo de todas as situações), que se movem por interesses nada altruístas, gerando mal entendidos atrás de mal entendidos numa espiral de estupidez e burrice quase desesperante. Acaba por ser um filme divertido sim, mas não uma mera comédia. O tom é próprio de uma sátira ao absurdo tão real. E é um tom duro, seco e implacável. Um tom que vai aumentando à medida que o filme desenvolve a sua progressiva dissecação clínica e cruel da estupidez, expondo-a para quem quiser ver.
Por isto tudo, dizer que se trata de um filme menor é um erro tremendo. Sim, é uma comédia sobre a estupidez humana. Sobre a cultura ou a sociedade da estupidez. Sim, faz-nos rir obviamente. Mas lá bem no fundo não se pode deixar de sentir aquele gostinho frio e austero da sátira. Afinal não vivemos numa sociedade repleta de pessoas estúpidas?


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3 comentários:

Dreamaster disse...

Pra semana começa o ciclo John Carpenter na Cinemateca. Vais ver ?

Anna disse...

Well-written, thanks for the review!

Bola Oito disse...

thanks!