Ok. Tive de deixar o pó assentar um pouco quanto a este. Não queria cair no mesmo erro em que caí aquando da primeira parte do "Kill Bill", que estranhei fortemente ao início, mas que depois se entranhou bastante, especialmente depois de ver a segunda parte. E hoje considero-o um excelente filme.
Convenhamos. O Quentin Tarantino do "Reservoir Dogs", "Pulp Fiction" e "Jackie Brown" mudou um pouco. Todos filmes fantásticos sim, mas que, à sua maneira formam uma trilogia encerrada a meu ver. O Tarantino do "Kill Bill", "Death Proof" e "Inglourious Basterds" é um realizador diferente. Mais refinado talvez (sem qualquer desprimor para os três brilhantes filmes iniciais), Mais "escritor" que "realizador" ou, pelo menos com o enfâse colocado em igual peso nesses dois elementos.
Todos os filmes primam pelos diálogos brilhantemente construídos, mas acho que é fácil notar uma maior preocupação em criar longos e significativos diálogos nos últimos três. A começar pelo longo diálogo que antecipa a confrontação final entre a Noiva e Bill, o desavergonhado girl-trash talking em Death Proof e, acima de tudo, os longos, contidos e tensos diálogos em "Inglourious Basterds". A cena inicial entre o agricultor membro da Resistência e o fabuloso Coronel Hansa e, acima de tudo, a cena, aparentemente longa e insuportável de tensão, na cave do café, são disso indício mesmo.
Resultado: uma pessoa é apanhada desprevenida. O trailer dava a ideia de ser um filme de acção desbragada com tiroteios e sangrias constantes, perpetradas por um grupo de soldados sanguinários. Nada disso. Quer dizer, sim, isso, mas é uma parte tão pequena do filme.
E sim, só o Tarantino consegue pegar em géneros emblemáticos do cinema, apropriar-se deles e não ser acusado de copiar descaradamente. Continua a ser um fã de cinema completamente nerd que quer prestar tributo aos filmes que viu na vida. E aqui não contente em pegar num género, pega em dois e mistura-os de forma perfeita. Realmente só o QT para conseguir dar um feeling western-spaghetti a um filme passado na França ocupada pelos Nazis. A própria música, os planos iniciais, tudo nos transporta imediatamente para uma qualquer planície árida do oeste americano (ou espanhol na verdade). Quase que se espera ver o Clint Eastwood a cavalgar no horizonte quando o que acaba por aparecer é uma coluna de soldados nazis.
Consigo perceber as sobrancelhas levantadas que o filme provocou. Eu próprio começei por levantá-las. Mas a verdadeira experiência cinéfila que é este filme só começa realmente a produzir efeito após se ter visto. As memórias e imagens e situações que deixa são, realmente, muito fortes.
E o que é que "engana" neste filme. Nós próprios. Vamos à espera de ver um alucinante filme de acção, repleto de tiros e selvajaria, a um ritmo rápido e incansável, com cenas repletas de guerra e tropas, um típico filme da WWII. Mas não. Não é disso que se trata. Ao invés temos um filme que é, em determinados momentos, algo lento, compassado, fazendo uso dos diálogos longos, que crescem em tensão até uma violenta e rápida explosão de energia, fazendo encaminhar progressivamente todos os personagens para o local onde o filme culmina, uma sala de cinema, curiosamente (ou nem tanto quanto isso).
Uma fantasia desvairada e inteligente, repleta de humor negro qb, onde o grupo de personagens que dá o nome ao filme, nem tem assim um papel tão importante. O que provocou ainda maior confusão.
Mas até ver, posso continuar a dizer que o Tarantino não desilude.
sexta-feira, outubro 02, 2009
Inglourious Basterds
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