Eis mais um filme discreto e despercebido que, provavelmente, nem teria ido ver (ou dado conta dele) não fosse o caso de ter apanhado numa destas Segundas-Feiras o "Cartaz" da RTP2, em grande parte dedicado a este filme. E mesmo assim, a Inglaterra dos anos 80 e a emergência do fenómeno "skinhead" não seria, à partida, um tema que me puxasse por aí além. Mas a verdade é que as imagens do filme deixaram-me interessado, bem como as entrevistas aos actores e ao realizador, Shane Meadows, o qual, segundo disse, fez aqui um filme basicamente auto-biográfico.
A história é simples: Shaun um puto de 11 ou 12 anos é constantemente gozado pelas mais pequenas coisas na escola. Um dia, ao regressar a casa, tem de atravessar um grupo de skinheads e prepara-se para ser gozado mais uma vez. Mas é Woody, o líder do bando, que mete conversa com ele, bem disposto e acaba por lhe dar apoio. Resultado, Shaun rapidamente se "enturma" com o bando.
E tudo corre bem até à chegada de Combo, libertado da prosão, um skinhead, mais velho e que vai provocar uma cisão no grupo devido aos seus ideais mais xenófobos e nacionalistas. Shaun decide alinhar com Combo, não só por ser facilmente influenciável, como também, e principalmente, por ver nele a figura paternal que não tem, uma vez que o pai foi morto na Guerra das Malvinas.
A premissa é simples, mas tudo o que revolve em torno desta é o que faz deste filme uma obra das mais interessantes do cinema britânico actual. O Tatcherismo, a vivência própria dos anos 80, a guerra, a emergência do nacionalismo como forma de combater a pobreza, etc etc, tudo é visto pelos olhos de um miúdo de 12 anos. Filmado de uma forma realista e dura, embora não tão violenta como se poderia supor, o filme é realmente excelente.
É um filme cheio de nostalgia pelos anos 80, pela cultura e música de então, e mostra ainda como a inicialmente inocente tribo skinhead, vinda da cena musical dos Mods e do Ska foi completamente subvertida pela introdução do elemento xenófobo e racista. O visual agressivo, as cabeças rapadas e as Doc Martens acabaram por ser aproveitadas pela National Front para os seus próprios fins.
A perda da inocência do movimento, tornado político e já não um mero movimento ligado ao visual ou à música, é também a perda da inocência de Shaun.
As interpretações são fantásticas, especialmente as de Shaun, que apenas procura um sítio onde se integrar e alguém que indique o caminho e de Combo, um homem violento e xenófobo, mas que acaba por ser a personagem mais trágica de todas com problemas pessoais que acabarão por tomar maior relevância que a "luta contra o estrangeiro".
Um filme trágico, violento aqui e ali, mas acima de tudo, muito nostálgico, feito com amor e, também, muito humor. British style, claro.
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