sábado, março 28, 2009

NEO REALISMO

A "arte pela arte" ou a "arte com conteúdo" é uma forma de resumir em poucas palavras esta exposição patente (odeio esta palavra) no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. O que me levou lá foi, em boa verdade, a exposição "Batalha pelas Sombras", uma exposição de fotografias dos anos 40 e 50 do Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado. O que eu não fazia ideia era que esta exposição de fotografias portuguesas neo-realistas se inseria numa exposição muito mais vasta dedicada exactamente a este movimento cultural em Portugal.
O neo-realismo foi uma corrente artística de meados do século XX, com um carácter ideológico marcadamente de esquerda/marxista, que teve ramificações em várias formas de arte (literatura, pintura, música) mas atingiu o seu expoente máximo no Cinema neo-realista, sobretudo no realismo poético francês e no neo-realismo italiano. Em Portugal o cinema e a música apenas ligeiramente se deixaram contagiar por estes novos princípios, mas, em compensação, houve extensa produção literária, teatral, fotográfica e pintura.
Não me posso alcandorar a entendedor destas coisas, mas parece-me que este movimento pretendeu imbuir a expressão artística de algum conteúdo útil, a chamada "arte útil". Não bastava, portanto, produzir arte só porque sim, era necessário dar-lhe um significado real e útil. Era essencial dotar a arte de algum conteúdo. Usar a arte para chamar a atenção para certos e determinados pontos da sociedade de então. Só assim valeria a pena. Só assim seria útil. E nos anos 30 e 40, nada era mais útil e real do que olhar para as condições sociais e económicas dum povo. Características essas que tomaram em Portugal, como se pode imaginar, uma importância assaz relevante, chegando muitas vezes o neo-realismo a significar uma verdadeira oposição ao regime salazarengo. A inspiração era óbvia e notória: a revolução bolchevique e a enorme produção artística que esta potenciou, de onde se destaca, em primeiro plano, os filmes de Eisenstein, em especial "Outubro" e o "Couraçado Potemkine".
Bom, não costumo ir assim a tantas exposições como isso. Digamos que já fui a umas quantas. Mas devo dizer que foram raras as que vi com tanto interesse e vagar. Foram raras as que se tornaram tão apelativas e me fizeram dedicar-lhes realmente o meu tempo.
De facto o Museu em si é muito interessante, e a exposição do neo-realismo espalha-se por três andares, muitíssimo bem organizada, com recurso a todos os suportes visuais e auditivos que se possam imaginar, e leva-nos por uma viagem através do tempo e do espaço. Uma viagem que não aborrece nunca em momento algum.
A exposição de fotografias é a peça central e inicial, mas segue-se depois um percurso histórico e artístico que dá conta da génese, desenvolvimento e influência do neo realismo na pintura, cinema, música, literatura e, claro, na política. É uma exposição, acima de tudo, muito bem montada, muito dinâmica, apelativa e perceptível. Vale bem a pena. No fim tive de comprar o catálogo. 10 € não é muito dinheiro pelo trabalho que tiveram ali. E nem cobram a entrada. Achei que sim.
As imagens expostas são “representativas das dinâmicas da fotografia portuguesa ao longo da década de 50, momento particularmente interessante e mal estudado da sua história.(…) A “batalha de sombras” que estas imagem evocam, é a repercussão duma sociedade cada vez mais polarizada entre a perpetuação duma ilusão e o desengano, produzindo imagens ensombradas por uma cultura fotográfica e artística pouco debatida, ignorando-se mutuamente, e em que cada imagem é a expressão dum dilema entre a “arte pela arte” e as rupturas (im)possíveis em prol duma arte de dimensão e participação social e humanista.” Emília Tavares.




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