quarta-feira, março 11, 2009

Australia

Há dias assim. Estava no Metro a caminho do carro e depois para casa, quando no banco ao lado reparei num folheto dos cinemas City. Folheei-o para me distrair quando reparei que o "Australia" ia a uma hora simpática e acessível no Campo Pequeno. E porque não? Já praticamente tinha desistido de o ver, mas afinal, a ocasião proporcionou-se e lá fui, esperando ser praticamente a única pessoa na sala. Mas não, havia bastante gente, o que não deixa de ser estranho pois já está em exibição há tanto tempo e nem sequer ganhou um óscarzito acho.
Mas siga.É um filme interessante sem dúvida, mais pelo que representa do que aquilo que é, se assim se pode dizer. É um filme "à antiga" que vai buscar coisas aos Westerns ("Rio Bravo" é a a referência fundamental) e a tantos outros géneros e filmes, como por exemplo, "África Minha", "O Feiticeiro de Oz", "Dotor Jivago" e, acima de tudo, "E Tudo o Vento Levou". É um filme de guerra, um western, um romance, um drama, um filme político-social e pintalgado de elementos exóticos, mesmo esotéricos, um filme sobre aprendizagem, em suma, tudo e mais alguma coisa.

Ou seja, é uma salada monumental, com os ingredientes suficientes para acabar numa tragédia. Mas não. Só mesmo Baz Luhrman para conseguir "sacar" este filme. Não só o homem decide ir no sentido oposto aos anteriores "Romeu+Juliet" e "Moulin Rouge" (não vi o "Strictly Ballroom"...ainda), realizando um filme clássico em todos os aspectos, como não se contenta em fazer apenas UM clássico. Açambarca elementos de vários filmes clássicos. E essa salganhada que, ao princípio pode soar estranha e condenada ao fracasso, acaba por resultar muito bem! Ou seja, debaixo de uma capa de classicismo, acabamos por encontrar ainda os elementos que caracterizam a "loucura" habitual dos filmes de Lurhman. Quase como que uma afirmação da sua personalidade. Certo, um filme clássico até à medula, mas "deixa-me cá meter o meu carimbo". É esse uso indiscriminado de vários elementos clássicos que o torna num objecto tão estranho como os filmes anteriores. Porém a homenagem ao cinema clássico e ao seu poder e essência surge aqui como verdadeiro ponto fulcral do filme.

Porque sim, acho que é isso mesmo o objectivo final do filme. Mais uma vez é de louvar. Sim sim, já sei que certas e determinadas correntes pensam que o cinema enquanto obra de arte deve ser vanguardista, artístico, deve ser complexo e sujeito a interpretações dúbias. Senão não vale a pena. Não posso estar mais em desacordo. O objectivo do cinema é contar uma história caraças! Se ela for bem contada e transmitir ideias e/ou mensagens (e não as impuser) e cada um as receber e interpretar como quiser, então já é um bom filme.

É esse o intuito de "Australia". Sim, um filme gloriosamente excessivo, épico e pomposo. Um filme que pretende arrebatar por completo o espectador a todos os níveis, um filme larger than life que usa e abusa dos grandes planos e dos wide open spaces, mas que ao mesmo tempo coloca toda esta "parafernália" ao serviço do simples e velhinho poder narrativo do cinema. E pretende que o espectador simplesmente se deixe encantar por este poder. Aliás, o aspecto de "storytelling" é mais do que declarado uma vez que o narrador da acção é um jovem aborígene, Nullah, um "creamy", meio branco, meio aborígene. E contar história (e cantá-las) é a essência da tradição oral aborígene.

Portanto, sim, vale a pena ver este filme. E no cinema, em grande ecrã. As paisagens são realmente de tirar o fôlego (percebo porque se diz que este filme fez muito pelo turismo na Austrália) e o par amoroso é extremamente credível, apesar de, discutivelmente, "aclichesados". Mas se é um filme 'à antiga' assim tem de ser. Muita acção, aventura, drama e amorrrrrr, mas raramente vi mencionado um dos pontos que mais me pareceu fundamental no filme: a cultura aborígene e a política de segregação racial que perdurou na Austrália até mais de metade do Século XX. SIm, saí de lá com vontade de ir ouvir Midnight Oil. Ehehe.


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