quinta-feira, abril 09, 2009

O Visitante

Ora aqui está um pequeno grande filme realizado por Tom McCarthy (autor do também excelente "The Station Agent" de há uns anitos atrás), condenado a passar completamente despercebido nas salas de cinema. Valha-nos o King. E ainda assim, duvido que o filme chegasse cá, não fosse o facto de Richard Jenkins (o eterno 'secundário' numa miríade de filmes - ultimamente o "Burn After Reading, por exemplo) ter recebido uma nomeação para Óscar de Melhor Actor. E merecida, diga-se de passagem. Sem grandes hipóteses de vencer claro, mas nestes casos, só receber a nomeação já é uma espécie de vitória.
A premissa é simples e devo dizer que o interesse me foi despertado pelo trailer. A personagem de Jenkins, aparentemente simples, intrigou-me. Por outro lado, há aqui dois tipos de filmes algo diferentes que, a dada altura, se encadeiam
Walter Vale é um professor de economia que perdeu por completo a paixão pela vida desde o falecimento da sua mulher. Preso a uma vida rotineira, tenta preencher o vazio da sua existência com o trabalho, com a escrita e com aulas de piano (para o qual não tem qualquer aptidão para sua tristeza).
Contra vontade tem de se deslocar a Nova Iorque para participar numa conferência e encontra no seu raramente visitado apartamento novaiorquino, dois emigrantes ilegais: Tarek, músico sírio e Zainab, joalheira senegalesa.
Esclarecido o mal entendido, aqueles apressam-se a sair, mas Walter acaba por os deixar ficar, talvez motivado por um misto de curiosidade e de excitação, pela novidade da situação.
Curiosidade também pelo djembé que Tarek toca e que este acaba por ensinar Walter a tocar. A nova amizade e o novo interesse musical operam um verdadeiro renascimento e reaprendizagem em Walter, bruscamente interrompidos pela prisão de Tarek.
E aqui começa a segunda parte, ou o "segundo filme" se assim se pode dizer. Se a primeira parte estava mais virada para o interior, para o "eu", agora assistimos a uma situação concentrada no exterior e nos "outros", ou melhor no "eu" contra "eles", se assim se pode dizer.
Walter inicia então uma verdadeira luta para salvar Tarek e impedir a sua extradição, percorrendo os meandros burocráticos duma América completamente paranóica e obcecada com os "aliens", com os terroristas, com a segurança, etc etc.
Ambas as "partes" são excelentes, embora deva confessar que a parte mais intimista e de renascimento pessoal me chamou mais. A crítica, não tão velada, à paranóia americana já é algo mais "corriqueiro", mas ainda assim é um bom corolário do que ficou para trás, e um ponto essencial no processo de renascimento para a vida de Walter.
Richard Jenkins é o ponto fulcral do filme, de ambas as "partes". Uma interpretação contida e sóbria, quase discreta. A mera expressão corporal é suficiente para vermos um homem abatido e derrotado. A relação que se estabelece entre ele e Tarek e entre ele e a mãe daquele é de onde ele retira a energia que precisa para se "puxar para cima". E, sem esquecer que é um filme, a verdade é que mais do que meras actuações, são pessoas reais que estamos a ver.




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