segunda-feira, março 03, 2008

Terreiro

Esta história do Terreiro do Paço (não, não sou monárquico, mas este nome é tão melhor) aos Domingos estar vedado aos carros tem muito que se lhe diga. Este Domingo fui lá dar uma vista de olhos rápida para ver o que é que a casa gastava. E quer-me cá parecer que gasta muito. Ou melhor, que não me parece haver grandes benefícios naquilo. Parece que me lembro mais ou menos de ter visto na televisão alguns comentários menos satisfeitos duns quantos comerciantes da zona. Embora não esteja bem a ver qual é o comércio que funciona na Baixa num Domingo, vamos assumir que sim, que o há. Ora, estes ditos comerciantes sentem-se lesados porque as pessoas, não podendo ir de carro, não vão de todo e pronto. Talvez assim seja, talvez não. A verdade é que o que eu vi neste Domingo não justifica, de todo, o corte do trânsito naquela zona.
Desta vez havia uma tenda gigante dedicada ao racismo no futebol (nunca pensei que houvesse
racismo no futebol, mas o mais provável é eu ter lido mal, pronto), um campo de futebol para torneios, uma tenda de adopção de animais (de longe a mais concorrida) e um espaço enorme, quase 1/4 da praça, onde estava disponível um balão de ar quente para proporcionar ao público a possibilidade de fazer algumas ascenções. Ora bem. Quando cheguei, por volta das 15.30, o balão estava ainda a ser enchido. Estranho? Será que se esvaziou inadvertidamente? Só pode, pois o Domingo sem Carros acabava daí a poucas horas.
Reparei que havia pouquíssima gente na fila, o que também achei estranho uma vez que era à borlex. Mas depois percebi o porquê. Simplesmente não valia a pena estar à espera debaixo do sol abrasador para entrar no cesto do balão. É que este subia apenas alguns metros no ar, e
apenas durante alguns segundos...acho que nem um minuto aquilo esteve no ar. Ah...e nem sequer, e aqui reside o busílis da questão, nem sequer subiu o suficiente para ultrapassar em altura os candeeiros de rua. No fundo aquilo é mais a experiência de levar com o calor no cocuruto da cabeça, com sorte queimar alguns cabelos do que outra coisa. Certo...é grátis, mas valerá a pena? Pareceu-me mais publicidade a favor da empresa de balonagem. Portanto estava explicado o facto de haver mais gente a ver o balão ser preparado e a seguir as operações que o levam a levantar vôo, do que pessoas propriamente interessadas em realizar o vôo em si.
O campo de futebol, entretanto, atraía uns quantos mirones sim, mas nada de especial devo dizer. O mesmo se diga da tenda do Futebol e Racismo, cheia de stands, mas vazio em geral.
A tenda da adopção de animais, compreensivelmente, era a mais animada e cheia de gente.
Obviamente que não me surpreendeu então que, as tais vias de acesso ao Terreiro do Paço, cortadas à circulação automóvel, apresentassem este aspecto desolador:



Ninguém. E estava um tempo excelente para passear. Aliás, o que ainda me surpreendeu mais foi outra coisa. Sempre esperei que o corte das ruas provocasse um trânsito irritante e cansativo. Mas não. A foto acima mostra o aspecto deserto de peões a Norte da rua, e a que se segue mostra os poucos carros que estavam a ser desviados a Sul:


Emfim, se a Baixa já é um deserto aos fins de semana, não me parece que isto venha contribuir para combater essa situação. Iniciativas, exposições, esplanadas, o que que seja, acho bem, mas cortar o trânsito parece ser um tiro no pé.

O tempo poupado foi o suficiente para a deslocação ao Museu da Electricidade e ver a exposição de fotografia das obras do Niemeyer.

...

2 comentários:

Anónimo disse...

Li o seu texto e achei piada. Alias li varios texto neste blogue. E notei logo uma bela característica. uma aptidão para a critica extraordinária!

Estou a realizar um trabalho de requalificação da praça do comercio. E como é óbvio para mim e 90% das pessoas que estão a realizar este mesmo trabalho (e não 100% pk n conheço todas as ideias)tirar os carros da praça do comercio e o primeiro passo para atrair as pessoas. se esteve lá no domingo e se já la esteve num dia de semana por exemplo, a PÉ, decerto que com o seu sentido de observação apurado reparou em duas coisas:

a diminuição drástica do ruído, que e extremamente desagradavel para quem quer ir dar um passeio por exemplo na zona.

a capacidade de deslocar-se na praça sem ter que esperar minutos intermináveis para passar numa passadeira.

razão tem em se queixar não e tanto de a praça do comercio estar fechada ao transito, mas sim o que existe para atrair e contribuir para o conforto de quem visita! neste momento nada ou pouco.

como disse e muito bem comercio não existe. existe algum comercio ambulante. todos os dias da semana. e se rende a eles se calhar também rendia aos outros comerciantes.

se não tenho sitio para estar sentado a apanhar a beber algo o que e q vou fazer para lá. se não tenho uma wc para usar, o que eu vou la fazer! As esplanadas de belem estão sempre cheias...

não existe zonas de sobra nem bancos. apenas umas pedras que ninguem quer sentar porque estão a ferver em dias de sol e geladas em dias de frio.


A falta de actividades culturais interessantes e variadas como espaço para crianças encheria a praça. como acontece noutros sitio da cidade.



E o mais importante e mais difícil de impor, porque é uma questão de civismo no mínimo:

Porque ir de automóvel para a praça do comercio quando existe com grande frequência e quantidade os seguintes meios de transporte

Eléctricos - da um passeio num meio de transporte que a maioria dos visitantes não utiliza com vista prestigiada sobre Lisboa

O metropolitano - a maioria das pessoas de Lisboa tem passe. e se n ão um bilhete de metro não e caro.(Se não tem deviam mas o exibicionismo de novo rico impregnado na sociedade portuguesa e tanto que carro usasse sempre ate para por o lixo! )

Barco - se vem da margem sul por 1 euro tem uma viagem rápida (10 min, nunca conseguirá fazer isto em dia de sol pela ponte!)e com dupla vista: a viagem de ida para Lisboa e a de volta com a luz do por sol a cair sobre Lisboa que e lindo. tudo por um euro. ;)

Autocarros- em menor quantidade mas existem.

se o snobismo e algo patente em si que não permite anda de transportes publicos vá de taxi. ou bicicleta. ou mesmo a pé se mora perto.

As fotos que mostrou salienta isto mesmo: não posso ir de carro n vou ou então não tenho nada para fazer lá ou ver, o que é que fazer lá?!? E ai não critico...

Bola Oito disse...

Caro anónimo:

Começando pelo fim, não me parece adequada a afirmação sobre o suposto “snobismo” da minha pessoa relativamente à utilização de transportes. É que, em boa verdade sou apologista dessa solução, e só não os uso com maior frequência pq, felizmente, não tenho necessidade de me deslocar a Lisboa em dias de semana. E qdo essa necessidade surge então asseguro-lhe que a minha política é preferir os transportes, não só pela questão ambiental, mas também pelo facto mais imediato de tal opção ser mais rápida, eficaz e, inclusivamente, mais barata.
E, concretamente em relação à Baixa de Lisboa, não foram uma, nem duas, as vezes em que optei por deixar o carro estacionado algures fora da zona central da cidade para apanhar o Metro. Mas nem sempre isto é viável.
Dou-lhe um exemplo: diariamente utilizo carro para me deslocar da minha habitação para o trabalho. Demoro entre 15 a 20 minutos sem grandes trânsitos. Já, por mais de uma vez, fiz o mesmo percurso utilizando os transportes públicos. Foi penoso, uma vez que demoro, em média, hora e meia, tendo de utilizar a CP, o Metro e a Rodoviária. O sentido inverso ao fim do dia ainda me leva mais tempo. Ora, por mais que eu goste e prefira os transportes públicos, neste caso, estou perante um sacrifício que, felizmente, tenho a possibilidade de evitar. Muitos não o poderão fazer, claro, mas eu optei por o evitar.
Posso até dar-lhe outro exemplo duma colega de trabalho que mora a 5 km do local de trabalho, os quais, se os fizer de transportes públicos, levam-lhe uma hora de percurso.

Portanto acho que sim, que há que promover a utilização dos transportes, mas há,
também, que criar uma rede maior e mais eficaz, mais transversal e intercomunicante entre os diferentes meios de transporte públicos.
Isto para dizer que a questão da rede de transportes públicos é material que ainda dá pano para mangas. Ainda estamos muito longe de (já nem refiro Londres ou Paris) uma Amesterdão, ou mesmo Praga na República Checa.

Obviamente que há melhorias notáveis, mas é preciso fazer mais.

A questão da Praça do Comércio é diferente. Nunca tive intenção de me deslocar a essa praça de carro. Até pq nem sequer é permitido lá estacionar. Mas a verdade é que as artérias envolvidas são um grande “escoadouro” de trânsito. Contemple por favor, a hipótese de hoje se cortar de vez o trânsito naquela zona TODOS OS DIAS. Seria um caos inimaginável. Não digo que sou contra essa solução. Aliás acho que se deve caminhar tendencialmente para tal. Mas este tipo de “operações de cosmética” não são, em meu entender benéficas.

E se se deve caminhar para essa solução, como escrevi, acho que esse caminho deve ser feito ponderada e paulatinamente. Há uma vasta série de problemas naquela zona que devem ser resolvidos primeiro. Há toda uma série de fundações que devem ser estabelecidas antes de partir para o telhado. Menos não merece aquela praça nobre que é, provavelmente uma das mais bonitas da Europa. Abrir a Praça aos cidadãos não passa, agora, por proibir os carros. Passa sim, e urgentemente, por regularizar a situação da zona ribeirinha da mesma (incluindo o pequeno troço, praticamente ao abandono, que vai da Praça até ao Cais do Sodré), passa por retirar os serviços ministeriais da zona e proceder à sua qualificação, comércio, hotéis, estabelecimentos da mais variada ordem…passa por imaginar e criar qualquer coisa que promova aquela zona. Passa também por resolver a situação do pavimento da praça e por encontrar soluções adequadas para o mesmo, em termos de materiais e ordenamento.

Espero que o seu trabalho de requalificação contemple estes itens, urgentes, quanto a mim.

De facto o que escrevia não era de todo contra a ideia de cortarem o trânsito no Terreiro do Paço. Era apenas e só uma crítica ao mau aproveitamento dado à ideia. A rua (esqueço-me do nome agora) entre o Cais do Sodré e a Praça estava deserta. Pq não aproveitar essa zona? A crítica inerente ao que escrevi prende-se sim com essa falta de soluções que concretizem habilmente a ideia. Ideia essa que, como escrevi, não é errada quanto a mim. A ideia não é má, mas não só me pareceu estar a ser concretizada de forma algo pobre (pelo menos naquele dia) como tb há situações que devem ser tratadas primeiro. No fundo, o que eu acho é que a ideia de ter cortado os carros nos Domingos, por mais benefícios que possa ter trazido, não pode, nem deve fazer esquecer que os verdadeiros problemas existem e merecem a melhor atenção.

Obrigado pela crítica construtiva!