Nem sei bem que diga sobre este filme. Primeiro e mais importante que tudo: ISTO NÃO É UMA COMÉDIA, independentemente da forma como o filme esteja a ser distribuído, independentemente dos trailers e, acima de tudo, independentemente dos sorrisos ou mesmos risos que surgem aqui e ali durante o filme (não são mais que produto do nervoso miudinho e desconforto generalizado que este filme provoca).
Dito isto, o filme É, de facto, estranhíssimo. Charlie Kaufman, como se sabe, não é leigo em matéria de "esquisitices". Escreveu o "Adaptation", "Eternal Sunshine Of The Spotless Mind", "Human Nature" e o "Being John Malkovitch", todos excelentes filmes e todos um prodígio em termos narrativos e de argumento.
Desta vez tomou as rédeas todas e escreveu e dirigiu pela primeira vez. Ou seja: carta branca a toda a sua alucinação paranóica.
É um filme difícil, perturbador, paranóico e cansativo. É um filme que exige muito do espectador. E se isso é interessante agora, horas após o ter visto, tenho de confessar que enquanto o via, me fartei. Especialmente na parte final em que a alucinação se torna de tal forma intensa que ficamos com uma sensação de desorientação total, tipo como no "Relatividade" do Escher ali em cima. Há algo de David Lynch num filme em que o personagem principal tem problemas em reconhecer a passagem do tempo, passando a sua desorientação para o espectador. Talvez não seja tão onírico com os filmes de Lynch, mas está lá o carácter exasperantemente labiríntico de uma espiral dentro de outra espiral interminável. Tipo as bonecas russas. Há camada após camada após camada. Ao ponto de, às tantas, se perder completamente o fio à meada.
Caden Cotard é um dramaturgo hipocondríaco e miserável (aos seus olhos) que à ideia de nunca ter feito nada marcante na vida junta a convicção de que está (sempre) prestes a morrer devido a uma qualquer doença grave. Para tal, lança-se no seu projecto mais ambicioso de sempre: encenar uma peça baseada na sua vida. A vida inteira, completa com centenas de actores, figurantes e uma réplica de NY construída num mega armazém em...NY, acaba por se tornar a sua peça, a sua obra de arte, tal como Piero Manzoni tornou o Mundo inteiro a sua obra ao colocar um pedestal ao contrário no chão.
Em determinado momento a peça, ou os ensaios da dita, acabam por reflectir em tempo quase real os verdadeiros acontecimentos da vida de Cotard, acabando tudo por se misturar de forma intricada. Há Caden Cotard, há o actor que desempenha Caden Cotard na peça, há o actor que desempenha o actor que desempenha Caden Cotard e assim por diante. Puxado sim, muito puxado...é a primeira vez que vejo o fenómeno da "recursividade" tão bem aplicado sem ser em imagens estáticas.
Bom...gostava de poder dizer que é um filme excelente. Mas não consigo. É muito interessante a nível conceptual e tem momentos muito bons. Mas enquanto um 'todo'...enfim, é demasiado custoso ver. E sim, estou consciente que é daqueles filmes que não entram à primeira e, provavelmente, requerem mais visionamentos para conseguirmos abarcar o seu sentido completo....mas em boa verdade...não tenho força anímica (jargão futebolístico, ena) para voltar a vê-lo....
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sexta-feira, agosto 28, 2009
Synecdoche, New York
err...
wow...
esquisito...muito esquisito mesmo....mais ainda do que a esquisitice habitual do Charlie Kaufman.
e como imagens valem mil palavras, eis algumas imagens que me saltaram à lembrança enquanto via o filme:
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2 comentários:
tinha avisado que era de doidos.
ainda estou perturbado e já o vi há quase uma semana.
Pois disseste. Mas ainda assim....
Os filmes com a "marca" Kaufmann são "doidos" por natureza, mas não esperava ALGO ASSIM.
Demasiado doido para o meu gosto acho. Aprecio a intenção, mas não me parece que faça o meu género de filme.
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