segunda-feira, agosto 10, 2009

RIP Raul Solnado

No meio de toda esta torrente vertiginosa de posts, não quero, não posso, deixar de dizer qualquer coisa para e pelo Raul Solnado que faleceu esta semana.
Não tenho idade suficiente para me lembrar do famoso "Zip Zip", aliás, não sou sequer desse tempo, pelo que ter qualquer memória seria de todo impossível.
Mas obviamente que, durante anos e anos, ouvi falar desse programa de televisão, quer da boca dos meus pais ou avós, quer na própria televisão.
E as imagens que vi, excertos mais ou menos longos, não me deixaram qualquer dúvida sobre a real importância desse programa na televisão de então e, acima de tudo, não me deixaram quaisquer dúvidas sobre o seu verdadeiro carácter revolucionário e inovador a todos os níveis. Carácter esse que o não torna num programa de televisão de forma alguma datado, mas sim num programa que ainda hoje seria actual e que facilmente bateria 99,9 % do entulho televisivo que actualmente entope os nossos aparelhos.
E grande parte desse carácter deveu-se, mais uma vez sem sombra de dúvida, ao talento do Raul Solnado.
A primeira memória que tenho dele remonta a uma longínqua sexta-feira em que eu, miúdo, banho tomado, pijama e roupão vestidos, fui autorizado pelo poder parental a ficar levantado até mais tarde a ver a representação televisiva da peça "Há Petróleo no Beato". Talvez por ser uma peça tenha obtido tal indulgência...sempre era melhor que o Rambo, ou qualquer outro filme de porrada.
Bom, a verdade é que hoje lembro-me menos da narrativa da peça do que da sensação de gozo e diversão que tive a ver aquilo. Mais do que a história em si, lembro-me de ter gostado imenso a peça e, em especial, o actor que fazia de chefe de família em cujo lar era descoberto petróleo.
Desde então o Raul Solnado sempre foi uma daquelas figuras queridas e simpáticas. Um tipo da televisão com piada e com uma cara, expressão, atitude e discurso de boa pessoa, de simpatia e de integridade.
Lembro-me, mais tarde, de estranhar vê-lo a fazer de inspector da PJ na "Balada da Praia dos Cães" e, hoje, é essa a memória mais viva que tenho do filme, curiosamente.
Desde então vi-o e ouvi-o em vários sítios e ambientes, sempre com grande prazer e respeito. Era difícil não simpatizar com a figura dele, com a cara de menino reguila e traquina que sempre teve mesmo nos últimos anos. Últimos anos esses que foram revelando uma fragilidade pungente e preocupante.
Agora que já não está entre nós vejo e oiço X e Y tecerem os costumeiros elogios e referirem o privilégio, o prazer e a honra que tiveram e sentiram por trabalhar com ele, ou por privarem da sua companhia.
E acredito verdadeiramente desta vez. Não consigo conceber que alguma daquelas personalidades diga tal "da boca para fora".
Seja como for, é como tudo na vida. Agora que se foi é que se sente a falta e importância dele. Mas a verdade é que antes não foi nada bem aproveitado pela televisão. Enfim. É assim a vida. Portugal ficou mais pobre definitivamente.

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