Estávamos no Metro a caminho do centro de Hamburgo quando a certa altura a conversa derivou para a II Guerra Mundial, e para os bombardeamentos que a cidade sofreu. Conversa em português, claro. Mas alguns nomes apareciam de forma bastante óbvia "Luftwaffe", "Goëring", etc etc. O que me levou a pensar o quão incómodo isso poderia ser para os alemães que viajavam connosco na mesma carruagem. Preocupação inútil claro e que teve apenas alguns minutos de vida. Fez-me lembrar aquele episódio do "Fawlty Towers" no qual um trio de alemães se hospeda no infame hotel e o gerente Basil Fawlty avisa o staff
para evitarem a todo o custo qualquer referência à guerra ("don't mention the war!!"), com medo de melindrar os hóspedes. Claro que, na sua costumeira forma trapalhanoa acabou a imitar o tio Adolfo e a andar em passo de ganso (como só o John Cleese sabe). Mas adiante que isto são outros quinhentos.É uma preocupação que já deve ser irritante. O estigma nazi sobre os alemães ainda deve ser algo forte, mas penso que é algo com que eles aprenderam já a viver e a aceitar, como parte essencial e importante da sua história.
Bom, dito isto tinha obviamente alguma curiosidade acrescida em cirandar pelas ruas de Hamburgo que, uns meros 60 anos atrás, mais ou menos, mais não eram do que pilhas de destroços e carcaças de edifícios. A construção foi rápida e eficaz, como já disse. Mas consegui dar com o único sítio que não foi propositadamente reconstruído. A igreja de São Nicolau, ou o que resta dela.
Obviamente a história da igreja remonta a séculos e séculos atrás, começando no século XII quando uma capela dedicada a São Nicolau foi construída no local. Um século mais tarde começou a ser construído um edifício maior e mais sólido cuja base, com mais ou menos alterações, remodelações ou expansões, perdurou até ao século XIX. A torre, um dos ex libris da cidade foi erigida no século XVI. Em 1842 o edifício foi totalmente consumido no grande incêndio que grassou em Hamburgo. Os trabalhos de reconstrução começaram imediatamente, terminando em 1863, após uma sucessão de projectos. A torre foi terminada um ano mais tarde sendo, durante alguns anos, o edifício mais alto do Mundo. Ainda hoje é o segundo edifício mais alto de Hamburgo, a seguir à torre da televisão. 
Tal imponente característica foi contra producente durante a Segunda Guerra Mundial, uma vez que os pilotos aliados usavam a torre como ponto de referência nos bombardeamentos exaustivos a que submeteram a cidade. Eventualmente, a própria igreja foi bombardeada, em 1943. Sofreu graves danos estruturais mas manteve-se de pé.
Após a guerra a reconstrução foi ponderada, mas optou-se por demolir a já muito debilitada nave, deixando intacta a torre. A perda de um edifício de tal ordem foi lamentada por muitos, mas a verdade é que no estado caótico em que Hamburgo se encontrava no pós guerra, a reconstrução da igreja não foi considerada uma prioridade.
A torre e restantes ruínas foram então deixadas como estavam, servindo como um enorme memorial contra a guerra. Os restantes destroços foram usados para solidificar as margens do Elba.E assim foi ficando até 1987 quando a cidade tomou consciência que, mesmo se tratando de ruínas, necessitavam de certos cuidados. Foi assim constituída uma fundação dedicada exclusivamente à manutenção e gestão do local. A dita fundação restaurou o possível, dotou o local com algumas infra estruturas, tendo em 1983 sido instalado o carrilhão de 51 sinos.
Em 2005 foi instalado um elevador que leva os visitantes ao topo da torre. Infelizmente havia alguma gente à espera para subir e eu optei por
usufruir do sítio cá embaixo e depois partir para outras paragens e ver outras coisas. No entanto, se algum dia lá voltar subirei de certeza.
É algo estranho entrar no espaço que resta da igreja. Especialmente quando não se sabe muito bem onde fica situada (bela porcaria de mapa ó senhores do Etap!) e quando se vem a andar por ruas elegantes ao longo (e por cima) de vários canais. De repente damos com aquilo que parece, ao início uma capela muito pequena. Qual quê. São apenas os restos que ainda estão de pé. Situada na Rua Willy Brandt, uma artéria com imenso tráfego, o local da antiga igreja é um sítio de calma e paz absoluta. Um sítio realmente parado no tempo. Enquanto que, literalmente, à volta dela tudo cresceu, edifícios modernos, canais e pontes, avenidas movimentadas, ali respira-se um silêncio e um respeito quase fantasmagóricos. Com alguns turistas a circular em silêncio por ali. O pequeno jardim com
árvores frondosas também ajuda a este sentimento de 'bolha temporal'. E em especial a singela escultura "Prüfung", que em português será qualquer coisa como "A Provação", também contribui para o ambiente mais "pesado". Colocada ao fundo, numa parede ainda intacta, quase num nicho protector, é impossível não nos sentirmos atraídos para ela. Só para nos sentirmos ainda mais comovidos do que já estávamos.
usufruir do sítio cá embaixo e depois partir para outras paragens e ver outras coisas. No entanto, se algum dia lá voltar subirei de certeza.É algo estranho entrar no espaço que resta da igreja. Especialmente quando não se sabe muito bem onde fica situada (bela porcaria de mapa ó senhores do Etap!) e quando se vem a andar por ruas elegantes ao longo (e por cima) de vários canais. De repente damos com aquilo que parece, ao início uma capela muito pequena. Qual quê. São apenas os restos que ainda estão de pé. Situada na Rua Willy Brandt, uma artéria com imenso tráfego, o local da antiga igreja é um sítio de calma e paz absoluta. Um sítio realmente parado no tempo. Enquanto que, literalmente, à volta dela tudo cresceu, edifícios modernos, canais e pontes, avenidas movimentadas, ali respira-se um silêncio e um respeito quase fantasmagóricos. Com alguns turistas a circular em silêncio por ali. O pequeno jardim com
árvores frondosas também ajuda a este sentimento de 'bolha temporal'. E em especial a singela escultura "Prüfung", que em português será qualquer coisa como "A Provação", também contribui para o ambiente mais "pesado". Colocada ao fundo, numa parede ainda intacta, quase num nicho protector, é impossível não nos sentirmos atraídos para ela. Só para nos sentirmos ainda mais comovidos do que já estávamos.A escultura foi criada por Edith Breckwoldt, artista natural de
Hamburgo, para o memorial de Sandbostel, na Baixa Saxónia. Sandbostel era onde, até 1945, estava localizada um dos maiores campos de prisioneiros nacional-socialistas. Mais de 50.000 pessoas de todas as nacionalidades encontraram aí a sua morte. O pedestal é feito com pedras vindas dos barracões dos prisioneiros. Sandbostel foi também a última paragem para cerca de 10.000 prisioneiros do campo de concentração de Neuengamme, em Hamburgo (info afixada no chão perto da escultura).
Hamburgo, para o memorial de Sandbostel, na Baixa Saxónia. Sandbostel era onde, até 1945, estava localizada um dos maiores campos de prisioneiros nacional-socialistas. Mais de 50.000 pessoas de todas as nacionalidades encontraram aí a sua morte. O pedestal é feito com pedras vindas dos barracões dos prisioneiros. Sandbostel foi também a última paragem para cerca de 10.000 prisioneiros do campo de concentração de Neuengamme, em Hamburgo (info afixada no chão perto da escultura). Não se encontram (ou eu não encontrei pelo menos) mais referências a este período da história alemã na cidade. É realmente uma cidade nova, reconstruída dos destroços de 1945 quase de raiz. Mas também não era preciso mais, o impressionante memorial que é a St.Nikolai-Kirche é mais do que suficiente e prova que os alemães, apesar do estigma ser ainda muito presente em termos históricos, estão realmente a aprender a viver com ele e, em certa medida, a ultrapassá-lo.
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4 comentários:
bem me parecia que um dia havia de vir aqui e aprender alguma coisa :) bela posta, gostei muito!
Postas de pesacada ou de bacalhau! É comigo!
:)
Muito obrigado! Mas.....só agora é que aprendeste alguma coisa....isso quer dizer que não tenho "mandado postas" com qualidade... :(
Muito bonito lugar e fotos.
Adoro visitar locais destes. Desde Zaragoza q não me perdoo não ter ido dar o giro.
Abraços
Pois. Não é só o Metal que exige sacrifício. =D
Mais fotos de Hamburgo aqui:
http://www.facebook.com/album.php?aid=99935&id=501877970&l=0d377118fb
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