Se bem me lembro, em 2001, aquando do ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, houve uma pequena corrida aos talhos e supermercados. Se foi geral, ou apenas localizado aqui, não sei, mas sei o que me relataram e contaram. As pessoas, estranhamente receosas que a Terceira Guerra Mundial se aproximava a passos largos, trataram imediatamente de constituir provisões para os tempos difíceis que se seguiriam após a hecatombe. Como nos filmes catástrofe "amaricanos" e tal.
Fiquei, confesso, abismado com tamanho histerismo e preocupado com a facilidade com que as massas se motivam pelos motivos mais desproporcionados.
Estranhos tempos são estes quando uns meros 11 anos depois, aquele comportamento observado então, me parece tão estranhamente "normal" agora...
O que se passou no Pingo Doce por esse país fora neste 1 de Maio é um verdadeiro caso de estudo sociológico, psicológico, mesmo antropológico. Desse ponto de vista imparcial, afastado e científico, acredito que seja um fenómeno extremamente interessante e digno de ser estudado nas universidades.
Fiquei, confesso, abismado com tamanho histerismo e preocupado com a facilidade com que as massas se motivam pelos motivos mais desproporcionados.
Estranhos tempos são estes quando uns meros 11 anos depois, aquele comportamento observado então, me parece tão estranhamente "normal" agora...
O que se passou no Pingo Doce por esse país fora neste 1 de Maio é um verdadeiro caso de estudo sociológico, psicológico, mesmo antropológico. Desse ponto de vista imparcial, afastado e científico, acredito que seja um fenómeno extremamente interessante e digno de ser estudado nas universidades.
Mas, saindo desse ponto de vista mais racional, a verdade é que foi um episódio triste, humilhante, chocante, degradante, embaraçoso e quase vergonhoso. Para o Pingo Doce, para as pessoas, para todos.
"Para o Pingo Doce e em força!" Foi o que a mole humana gritou desenfreadamente naquele dia. A massa humana sim, porque será impossível, e estou certo que a ciência explicará e corroborará isto, falar de pessoas singulares e isoladas. Aquilo foi a verdadeira manipulação de massas através do aproveitamento sem escrúpulos da situação deplorável em que se encontra o país e, pior, a carteira dos portugueses.
É demasiado fácil apontar o dedo ao povinho que se submeteu a isto. Eu não sabia deste "evento", e, como se viu, fui para outras "manifestações", mas se soubesse teria ido lá. Claro que duvido muito da minha capacidade de ficar mais que uma hora numa fila, naquelas condições, mas que diabos, compreendem-se as pessoas que, perante um desconto de tal ordem se tenham sujeito àquela "indignidade". Na minha última incursão a um supermercado larguei quase 100 € e teria ficado satisfeito se tivesse trazido o mesmo para casa por metade do preço. Obviamente, acho eu, o outro "preço" é demasiado caro. Relatos de desacatos e espancamentos entre clientes lembram-me filmes catástrofe ou de zombies, em que os humanos, ditos normais, perante uma situação extrema e catastrófica deixam vir ao de cima a sua verdadeira natureza bestial e do "salve-se quem puder". O "monstro", na maior parte das vezes está em nós, e não no zombie que se arrasta pateticamente. E foi no que muitas daquelas pessoas se tornaram, monstros assustados, perdidos numa espiral frenética de desespero consumista. Têm motivos para se envergonhar, mas, em bom rigor, não as censuro. É assim que a massa humana funciona. Cada vez mais quando apelam ao respectivo bolso. A culpa será deles ou de quem levou isto a um estado de coisas tal que qualquer um se sujeita de bom grado e com um sorriso nos lábios a tamanha desconsideração?
Mas isto não deveria constituir uma surpresa tão grande...afinal, a única coisa que o Pingo Doce fez foi elevar e potenciar ao máximo esta característica que, infelizmente, está cada vez mais vincada. As pessoas fazem de tudo para obter um benefício, seja material ou não. Daí a profusão de reality shows onde as gentinhas fazem figuras tristes, dos concursos mais variados onde se prometem mundos e fundos....Lembro-me da existência, há uns anos, de um destes concursos, apresentados pela inenarrável Teresa Guilherme, onde os concorrentes eram desafiados a fazer as coisas mais absurdas e, degradantes, para levarem algum dinheiro para casa. E clientes não faltavam. E acediam a fazê-las. É isto o que temos. Mas há que fazer pela vida, pagando o preço que é pedido.
Agora, que dizer dos senhores do Pingo Doce, um estabelecimento que, até agora, até me merecia alguma consideração? Consta que havia uma movimentação virtual para realizar um boicote às compras no Pingo Doce, precisamente nesse dia, pelo facto de o Sr. Jerónimo querer "forçar" os trabalhadores a comparecerem em dia feriado. Ora, não houve melhor contra ataque que fazer isto, e ter a maior afluência de sempre. Como se explica que um estabelecimento, num único dia, se permita ter margens de lucro reduzidas a metade? Qual é afinal a margem de lucro desses senhores do Pingo Doce? Como vai agora ser possível entrar num supermercado desses, pagar X por um artigo e não pensar que, afinal, podia-se, perfeitamente, estar a pagar X-50%?
Enfim, deplorável é a única palavra que surge.

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