domingo, maio 13, 2012

Como é?


Apeteceu-me, há uns meses largos, escrever ali ao lado que não tinha dado qualquer acordo ao acordo e que, portanto, daí se inferiria que escreveria sempre de acordo com o português que me ensinaram na escola. Porém...
Porém, em boa verdade, acho que aquele pequeno texto ou frase já deixou de fazer sentido. Continuo a achar, em grande parte, que este Acordo Ortográfico é uma grande palermice, que não se justifica, que complica ainda mais uma língua que já é considerada demasiado críptica e complicada pelos incautos estrangeiros que têm a (in)felicidade de a estudarem e aprenderem e que, no fundo é uma vénia a interesses superiores aos nossos (haverá, hoje em dia, algum interesse em que o nosso país possa ditar o que quer que seja?).
Porém, todavia e contudo, a verdade é que nunca escrevi "pharmácia" ou "portuguez", ou outras palavras que foram alteradas pelo anterior Acordo Ortográfico ou como raio se chamou. É facto assente, não usamos essa ortografia e consideramo-la esquisita e anacrónica. O mesmo vai ocorrer agora. É a evolução, pronto.
E no dia a dia laboral, onde já sou "obrigado" a escrever certos documentos oficiais de acordo com as novas regras, dispondo para o efeito de um corretor (cá está!) instalado no Word, já dou comigo a escrever omitindo alguns "c" e "p", para aquilo não dar "erro".
Mas a verdade é que o que me leva cada vez mais a "desvalorizar" a importância e impacto deste Acordo Ortográfico é o facto, cada vez mais notório, de o verdadeiro ataque à Língua Portuguesa não provir desse documento formal e burocratizado.
Muito mais que o Acordo, contra o qual muitos se insurgem, a verdadeira deterioração da língua portuguesa está a acontecer no dia a dia, e de forma muito mais corrosiva e destrutiva, do que uma mera alteração cosmética como é, quase, este Acordo.
As pessoas falam mal. Escrevem mal. E lêem pouco. Mas também, diga-se em abono da verdade, não bastaria ler muito para se escrever bem. Pois se há tanta gente que decerto lê e comete erros e calinadas de alto calibre. Falta ter espírito crítico, saber identificar os erros, saber que assim está mal, que basicamente "soa mal". Falta ter interesse. É o que falta. E nem é preciso saber muito de gramática e respectivas regras para obter este espírito, pois, por mim falo, de gramática percebo pouco. Mas foi-me incutido o "chip" necessário. "Chip" esse que tenho ainda prazer em manter alerta e activo. E saber o que está mal quando está mal. E é das poucas coisas que gosto que me sejam apontadas, nas ocasiões em que as calinadas são de minha lavra.
Para quê criticar o Acordo Ortográfico quando a maioria nem sabe distinguir os velhinhos "à" e "há"? Quando não sabem sequer conjugar o modo subjuntivo do pretérito imperfeito? Cada vez mais se vê o raio do hífen onde ele não deveria existir, o "entra-se" em vez do "entrasse", o "canta-se" em vez do "cantasse", etc etc. Mas será possível que nem sequer o mero som das palavras não indicia o erro a esta gente? Não perceberão eles a dado momento, que estão a confundir formas verbais e modos?
Confesso que tive de procurar para saber dizer o palavrão "Modo Subjuntivo do Pretérito Imperfeito". Como disse, regras gramaticais não são o meu forte, mas co'a breca, é algo básico que devia fazer parte do sistema de qualquer um. Saber que está errado, mesmo não sabendo o nome da regra gramatical correspondente. E, pior ainda, o "chegá-mos", em vez do "chegámos" e, aquele que bateu todos os recordes e me inspirou este desabafo, o cómico "arrogam-te" em vez de.... "arrogante" (socorro!)
Enfim, e já nem falo do inenarrável "deve de", o qual já foi aqui abordado nos idos de 2006. Esse já está tão instalado no quotidiano que já ninguém repara. Aliás, a quantidade de gente, jornalistas, figuras públicas e outros que tais, que usam tal "expressão" na televisão têm apenas contribuído para oficializar a coisa. Porque, como se sabe, se "tá na TV é porque é verdade" e eu "devo de pensar que sou muita esperto". Valha-nos Santa Edite e São Diogo.
O Acordo Ortográfico é um ataque despudorado à Língua Portuguesa? Sê-lo-á, mas é o que merecemos, quando não sabemos escrever e defender a nossa Língua.

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