"The Road" foi baseado no livro do mesmo nome de Cormac McCarthy, o mesmo que escreveu "No Country For Old Men", aclamado filme de 2007. Aclamado, mas não por todos. É um bom filme, mas houve qualquer coisa que falhou ali, para mim, pelo menos. Seja como for, isso não acontece com esta outra adaptação.
"The Road" é uma pequena pérola brilhante em toda a sua simplicidade e crueza. É um filme pesado sim, muito cinzento (e não apenas na fotografia), algo incómodo e quase cruel. Precisamente por toda a simplicidade e dureza com que apresenta a Humanidade, reduzida ao seu mais básico instinto, a sobrevivência.
A história resume-se em breves linhas (e isto não significa que o filme não tem história!): num Mundo pós apocalíptico, pai e filho viajam em direcção ao sul e à costa em busca de uma eventual e possível salvação. E aqui reside muita da simplicidade: somos poupados ao ano, ao local (embora se presuma que se trate da América, claro) e, acima de tudo, não fazemos a mínima ideia sobre o que causou a destruição total da vida na Terra (não há animais, não há árvores, não há vida, salvo por uns quantos sobreviventes). Aliás, como se não bastasse, as personagens nem têm nome conhecido. Tal não é necessário, inserindo-se essa opção na ideia de "despir" a narrativa ao máximo, reduzindo-a ao seu essencial puro e duro.
Tudo isto distancia este filme dos restantes filmes-catástrofe e pós apocalípticos que por aí pululam. Aliás, basta pensar no recente "2012", que não vi, mas que facilmente se conclui ser um daqueles filmes catástrofe, repletos de efeitos especiais de encher o olho, e onde tudo acabará bem.
Nada disso aqui, "The Road" é um filme sofrido e de sofrimento. Não sabemos o que aconteceu, nem sabemos se irá haver salvação. No fundo todo o apocalipse que nos é apresentado (brilhantemente bem filmado, com a necessária contenção e pouco fogo de vista) serve apenas de pano de fundo para aquela relação entre um filho que nasceu num Mundo destruído sem conhecer outro, e um pai que faz sua missão sagrada proteger o filho e, acima de tudo, sobreviver.
Mas não se trata de sobrevivência a todo e qualquer custo. E uma vez que o filme mostra a Humanidade reduzida ao essencial instintivo, consegue eficazmente uma coisa que geralmente é altamente ingénua e redutora, mas que aqui funciona em pleno: há realmente os "bons" e os "maus", os que retêm e tentam preservar algumas das características morais e éticas do Homem, e os que abandonaram tudo para se concentrarem na mais pura sobrevivência incondicional. O pai tenta transmitir esses ideais ao filho, mesmo sabendo que isso lhes pode custar a vida naquele mundo árido.
O Viggo Mortensen continua a saber escolher os filmes. Excelente actor, mais uma vez um Óscar não lhe ficava mal dado. É, de longe a personagem mais complexa, a de um pai atormentado, mas apostado em sobreviver acima de tudo pelo e para o filho. Um everyday man tornado "super-herói", capaz de tudo pelo filho, mesmo de alguma crueldade. Muito bom.
segunda-feira, janeiro 25, 2010
The Road
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