terça-feira, agosto 01, 2006

O "Conde"

O livro que me tem vindo agora a ocupar merece sem dúvida ser mencionado. “O Conde D’Abranhos” do Eça de Queirós veio relembrar-me porque é que este é o meu escritor português preferido . Andava um bocado de ‘candeias às avessas’ com o Queirós depois de ter sido forçado a abandonar (temporariamente!) a leitura de ‘A Relíquia’ pelo facto de o livro não me estar a cativar em absoluto. Mas pronto, podia não estar na disposição certa.
O que interessa é que este outro livro me encontrou ‘disponível’ e surpreendeu-me muito.

Eça relata-nos a vida de um político fictício do séc. XIX, figura paradigmática do Constitucionalismo (o tal Conde, Alípio Abranhos) através das palavras do seu Secretário, um tal Sr. Z. Zagalo, que, à laia de homenagem póstuma decide escrever uma biografia depois da morte do seu ex-patrão. Não uma biografia que segue os eventos cronologicamente, mas sim um suceder de episódios relevantes no tempo que nos permitem brilhantemente vizualizar este Conde d’Abranhos.

Deste modo estão reunidos os meios para que Eça faça, porventura, uma das mais impiedosas caricaturas literárias dos costumes políticos portugueses da época.
Estes episódios são-nos apresentados num tom de profunda admiração pelas ideias, projectos e atitudes do Sr. Conde, que é visto pelo seu ex-secretário como a mais brilhante mente do seu tempo
No entanto a sua própria imbecilidade transforma o desejado elogio do estadista numa gargalhada. Fica exposto um político oco e ávido, trapaceiro, capaz de tudo para atingir os seus objectivos. Um político que coloca os seus interesses à frente dos da Nação e que considera que há que afastar os pobres, manter o Povo na ignorância e suprimir qualquer atitude construtiva por parte dos estudantes.
O sarcasmo cáustico, a ironia afiada reside precisamente no facto de enquanto lemos as palavras de admiração e elogio do Sr. Zagalo, vemos perfeitamente o tipo de pessoa que o Sr. Conde é: uma pessoa sem princípios, com uma falsa moral, hipócrita e calculista, preocupado mais com as aparências do que com a realidade. O tom exageradamente rasgado dos elogios e homenagens em contraste com o que o elogiado é na realidade só pode provocar-nos gargalhadas.

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Alípio Severo Abranhos é conde e motivo de uma biografia caricata e caricatural.
Em si mesmo, Abranhos satiriza o político do constitucionalismo, a sua mediocridade e o postiço que o atormenta; doutro ponto de vista, ele é sobretudo a falsificação do talento e da habilidade política. Em síntese, a ironia de Eça no seu máximo fulgor.


Imagem e excerto retirados de: Personagens Ilustres


O mais triste é pensar que ainda hoje, provavelmente, se podem encontrar bastantes ‘Condes d’Abranhos’ por aí.....

3 comentários:

Anónimo disse...

Ao pesquisar uma imagem que enriqueça o texto para o meu próximo artigo, no meu blogue,
olhar-aeminium.blogspot.com
dei-me com o seu blogue, que considero uma preciosidade. «O Conde de Abranhos» irá ser tema do meu próximo texto.
Parabéns!

Bola Oito disse...

:)

Muito obrigado pelas palavras elogiosas. Obrigado.

IRei ver o seu certamente!

Bola Oito disse...

http://olhar-aeminium.blogspot.com/2008/07/os-condes-de-abranhos-do-sc-xxi.html

E eis o link para o tal texto. Excelente.