quarta-feira, novembro 16, 2005

Porque é que gosto de Heavy Metal II - O Preconceito

Porque é que gosto de Heavy Metal? Porque é que gostamos de Metal, os que gostam isto é? É uma pergunta que se tem atravessado no meu caminho desde há vários anos, desde que comecei a gostar desse estilo musical. Agora já não tanto, claro, uma vez que as pessoas já sabem que gosto e não há interesse em saber porquê. Porém, sinto que a questão muitas vezes anda à minha roda, sabendo eu que muitas das pessoas com as quais me dou e que, por acaso, não fazem a mínima ideia que eu sou fã, terão essa reacção de espanto, caso venham a saber. De facto não é evidente na minha pessoa que eu ouço metal. É raro vestir-me de acordo com a ‘tribo’, não tenho cabelo comprido, etc etc. Na verdade o cerne da questão está precisamente em saber não porque é q alguém gosta de Metal, MAS SIM o porquê de alguém com um aspecto nada metal, pacato e pouco dado a ‘satanismos’, como eu, gostar efectivamente de tal género de música. Ou seja estamos perante uma espécie de ‘preconceito’.

Lembro-me de nos meus primeiros anos de Faculdade entrar na sala de aulas com dois álbuns de metal debaixo do braço. Um deles era o “Chaos AD” dos Sepultura. Acabadinhos de emprestar. Alguns dos meus colegas olharam-me com espanto e afirmaram: “O quê? Não me digas que tu ouves isso??”. E já várias pessoas (mais recorrentemente a minha mãe) que expressaram a sua estupefacção não percebendo “como é que um rapaz tão pacato como tu gosta de ouvir estas músicas...”. È assim que tem sido. Não me incomoda minimamente, é quase hilariante mesmo. É que ninguém pergunta a um fã de pop porque é que gosta de pop, ou a um fã de música clássica porquê é que ouve Mozart, ou a um fã de rap porquê perder tempo a ouvir isso. Não. De todos os estilos musicais o Metal parece ser o único do qual uma pessoa deve cansar-se e evoluir para outros níveis. E antes de o fazer será sempre um puto acriançado e meio doido a gritar encarniçadamente por sangue e tripas ou satanás, etc etc. É outra das ideias que tenho encontrado bastas vezes, quando estou perante alguém que já gostou de Metal:”Epá, eu gostava disso quando era mais novo! Aquilo é que era! Os Iron Maiden ainda existem?”

Tudo bem, as pessoas são livres de deixarem de gostar de uma coisa à medida que crescem. Outros interesses e estilos de vida substituem a vida que se tinha na juventude. É natural e TODOS passamos por isso aos mais variados níveis. Mas é errado pensar que todos passam por isso da mesma maneira. É errado pensar que por se ter determinada idade deixa de se poder fazer determinadas coisas. Ok, é certo que há coisas que de facto já não são apropriadas, mas ainda assim, nada é proibitivo.
Como tal não deixa de me intrigar o fenómeno que é a ideia pré-concebida segundo a qual a partir de certa idade deixa de se poder ouvir metal. É redutor e ‘envelhecedor’. É uma relação de causa-efeito que me surpreende e me deixa algo perplexo. O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Uma pessoa deixar de gostar porque perdeu efectivamente o intereese é uma coisa diferente duma pessoa deixar de gostar porque já’não é suposto gostar’. Parece-me que ninguém faz este raciocínio, mas há toda uma série de pessoas que ESPERAM que ele seja feito. “Então? Ainda andas a ouvir isso?”

Este preconceito prende-se com um outro, anterior e mais geral. Porque é que a partir de certa idade não é suposto ouvir heavy metal, ou porque é que certo tipo de pessoas provocam estranheza ao afirmarem-se como fãs?
É simples. Porque escapam ao preconceito estabelecido e generalizado. Este preconceito diz-nos que os fãs de heavy metal são jovens eventualmente ameaçadores e perturbados, definitivamente muito agitados e perigosos, com propensão para coisas escuras, para sacrifícios, para rituais satânicos e para berrarias em geral. É o corolário lógico segundo o qual todo o heavy metal é feito de ‘macacos’ gigantes e peludos que debitam verdadeiros grunhidos ininteligíveis e potencialmente ameaçadores e ofensivos a um microfone. Acompanhados por outros ‘animais’, tb feios, sujos e maus a procederem à destruição gradual dos instrumentos que têm em mãos.

Ora, esta imagem apocalíptica que descrevi, existe obviamente. Há no mundo do metal verdadeiros grunhos que, em poucas palavras, correspondem a esse estereótipo. MAS não quer dizer que seja tudo igual, não quer dizer que todo o heavy metal seja composto por sujeitos assustadores e que toda a temática seja ‘vampiresca’. É óbvio que isso existe, não é á toa que a cor oficial da tribo seja o preto (embora com uma maior intervenção de outras cores mais berrantes, ao contrário dos chamados ‘góticos’), e é esse o ambiente privilegiado por muitas bandas. Mas há quem o faça com inteligência e mesmo quem se dedique a outros factores menos dark. Tal como nos outros estilos musicais, no Heavy Metal há de tudo. Do mais ridiculo e obnóxio ao mais sublime e genial. Há coisas boas e coisas más.

Mas é isto que a maioria do público não parece reconhecer. Falar de Heavy Metal é para eles conjurar a tal imagem apocalíptica acima descrita. É a famosa ‘música do demo’, composta unicamente por barulho desenfreado.

Nada pode ser mais errado. Generalizar é, aliás, sempre errado. Essas pessoas não saberão portanto que há toda uma vasta gama de cores e nuances no heavy metal, para todos os gostos. Nunca saberão que nem todo o heavy metal trata de histórias de assaltos a cemitérios na noite escura, contadas de forma imperceptível. Nunca saberão das excelentes vozes que pululam por aí (cada vez mais) e dos excelentes músicos que as acompanham, das mais variadas vertententes e formações.

Não. Todo o Heavy Metal é formado por grunhos embrutecidos. Tal como todo o Pop é formado por rapazes e raparigas semi borbulhentos a cantar com voz de cana rachada. Tal como todo o Rap é formado por gangsters e assassinos foragidos da polícia. E todo o rock composto por clones do Elvis com as competentes poupas e suiças.

7 comentários:

Taradão disse...

Outcast

All alone
So unreal
Follow illusions
Beyond imagination
All alone
Cannot breathe
Feelings isolated
All your heaven breeds frustration

Outcast

All alone
Is it real?
Killing illusions
Beyond imagination
All alone
Cannot feel
Absolute rejection
In a world with no reflection

Now you've crossed the line
See with different eyes
With a different mind, looking
Straight through your disguise

Do you ever know what it really means
Being pushed away
Driven to the last extreme
All you'll ever be, all you ever were
Nothing but a freak, just a sociopath

Outcast



Mille Petrozza

Dreamaster disse...

Sem tirar nem por.
Recentemente fiz uma apresentação abordando este assunto no meu curso.
Infelizmente, essas pessoas não sabem a excelente musica q tão a perder dentro ho metal, dependendo sempre da radio e televisão comercial pra lhes mostrar o q há e devem ouvir(mas nunca metal, claro).

Anónimo disse...

Sim senhor, nem mais, sem tirar nem por. Por mais de uma década que sinto na pele esse tipo de preconceito e sempre estranhei o facto de as pessoas ficarem espantadíssimas quando vêm a saber que oiço metal e que toco numa banda de metal. Na nossa sociedade, por motivos laborais e não só -hoje em dia até nas escolas - as pessoas são forçadas a adoptar uma posição low profile e totalmente mainstream para poderem escapar aos objectos do preconceito, que afectam a comunidade metálica, mas que também afectam fãs de rap e de outros estilos considerados mais "marginais". É absurdo catalogar as pessoas e generalizar um estilo, um movimento artístico, uma corrente musical, etc. Este tipo de preconceito mostra o país em que vivemos e a sociedade tal e qual como ela é. Concordo contigo quando dizes que chega a ser hilariante, mas se pensarmos nisto a fundo vemos que é bem mais triste, porque fazemos parte de uma sociedade que prefere a embalagem / rótulo das pessoas ao seu interior / conteúdo pessoal, artístico. Também está nas nossas mãos ajudar a desmistificar as coisas...

Anónimo disse...

Olá a todos!
Eu de facto sou preconceituosa nesta matéria, mas acima de preconceituosa sou curiosa. Uma curiosa com vontade de perder preconceitos...enfim!

Se nao falam de assaltos a cemiterios, falam sobre o quê e porquê de uma forma q nao se percebe mesmo e parecem mesmo estar a grunhir orgulhosamente.

Eu gosto de musica no seu geral. Mas nao consigo ouvir o q n percebo, esclarecam-me tragam uma alma á claridade.

Obrigado

Bola Oito disse...

@ raimas:

sim, obviamente que esse preconceito para com os ouvintes de música clássica tb existe, tal como certamente os 'puristas' desse género tb t~em a sua quota parte de preconceito. É inevitável.

Bola Oito disse...

@Anónima Preconceituosa mas Curiosa:

É saudável que tenhas curiosidade, mas a verdade é que o que escreveste prova por 'A+B' o que eu escrevi. É impensável que todo o heavy metal fale desse tipo de assuntos, tal como é impensável que todo o rap fale de guerras de gangues rivais e de 'drive by shootings'. Tal como é impensável que toda a música pop fale de assuntos colegiais e adolescentes como a Britney Spears por exemplo.

Como em tudo, há de TUDO!

Perguntas porque é q falam duma maneira que não se percebe. não sei bem a que te referes...se às vozes ou ao conteúdo lírico das canções. Se te referes às vozes então, claramente não percebeste o q eu escrevi, pois frisei mais do que uma vez que o esilo de vocalizações vai do mais absurdo grunho gutural à vozinha mais irritantemente fina e estridente.
Ora sendo estes os dois extremos, penso que é viável considerar, mesmo para quem não conhece a fundo, a existência de toda uma miríade de estilos vocais, os quais são de fácil entendimento e percepção.
Se te referes ao conteúdo lírico, às letras e temas, bom, como hás-de calcular isso varia muitíssimo. Num mundo tão vasto, acho que podes encontrar (tal como nos outros géneros) um grande número de assuntos, desde aspectos sociais, políticos, fantásticos, científicos, históricos, pessoais, sentimentos e estados de alma....e sim outras coisas 'mais próprias do Metal'.

Posso te dar um exemplo imediato. Tanto o Bryan Adams como os Iron Maidn têm canções sobre o mesmo tema: "Remembrance Day" do Adams e "Paschendale" dos Maiden versam ambas sobre as dificuldades e agruras da Primeira Guerra Mundial.....e no entanto nada parece ser mais afastado, aparentemente, que Bryan Adams e Maiden. A propósito ambas são excelentes canções, embora prefira a de Maiden.

Portanto, se gostas de música, manténs a mente aberta. Podes não gotar do que ouves e dizer que é mau. MAS não podes partir do princípio que todos 'grunhem orgulhosamente'.

A claridade de que falas é facilmente alcançável. Depende de ti.

Anónimo disse...

Vou morrer ouvindo Metal!