quarta-feira, novembro 02, 2005

Álbum da semana

Esta foi uma daquelas bandas que descobri na rádio (ver post Super FM). Lembro-me de ouvir a “Beds Are Burning” e ficar realmente abismado com a inteligência das letras (enganadoramente simples) e com a melodia refrescante da banda. Na altura tinha acabado de sair o álbum “Earth And Sun And Moon”, e foi este que melhor me fez conhecer os Midnight Oil. Canções como “My Country”, “Renaissance Man”, “Truganini”,” Outbreak of Love”, etc fizeram parte dos meus dias até…bem, até hoje! Lembro-me perfeitamente, por exemplo, do dia da semana e da hora em que pela primeira vez ouvi o “Outbreak Of Love”. Quando percebi que era a mesma banda do “Beds Are Burning” fiquei imediatamente conquistado e tornei-me um fã absoluto desta banda excepcional. Sem contar com dois EP’s e um Greatest Hits com uns temas nunca antes lançados, só me falta o primeiro e homónimo álbum.
Apesar dos Midnight Oil já andarem a lançar excelentes álbuns pelo menos desde 1979, eram apenas um grande nome na Austrália, ajudados também pelas electrizantes e energéticas prestações ao vivo.

Foi em 1987 com este álbum e com o single “Beds Are Burning” que explodiram mundialmente.
Os Midnight Oil pautaram-se desde o início por uma consciência altamente política, social, ambiental e humanitária. Esta visão era apresentada por meio duma música bastante agressiva e eléctrica que ia buscar muitas influências à atitude punk do início dos anos 80.
Contudo, este álbum “Diesel and Dust” marca o início (já antes timidamente esboçado) duma nova fase para a banda, mantendo as temáticas que tão caras lhes eram, mas com um maior cuidado na apresentação e na composição, abrindo espaço à melodia e á harmonia. Este passo tornou-os mais “acessíveis” e “audíveis”, o que lhes granjeou também alguns “narizes torcidos” dos fãs mais aguerridos, como é costume aliás nestas situações.
Seja como for foi assim que se popularizaram pelo mundo fora, EUA incluídos. Os dois álbuns que se seguiram, “Blue Sky Mining” e “Earth and Sun and Moon” formaram com este uma trilogia que marca a época áurea dos Midnight Oil, quando eles deixaram o underground e partiram á conquista do Mundo. Sem, no entanto, perderem qualquer das qualidades antes apontadas. Sempre foram, para mim, o protótipo duma banda
honesta e trabalhadora. Pode-se não gostar da banda, da música ou da forma como eles agiam, mas não se pode nunca negar a postura honesta e confiante que eles tinham em si e no seu trabalho. Afinal não é qq banda que acabou de ‘quebrar’ o mercado internacional que acede a fazer uma digressão pelo interior da Austrália, em 3 jipes, atravessando os desertos australianos debaixo dum calor abrasador para dar ‘concertos’ cujo único público era composto por tribos aborígenes! Rídiculo? Talvez haja quem ache isso. Pessoalmente acho que é um motivo de orgulho. Para eles e para os seus fãs.
Sei que há quem não suporte esta faceta ‘demasiado’ interventiva da banda. É uma maneira de ver, e qto a isso não se pode fazer nada. A cada qual, o seu.
Os Oils têm sido considerados como sinónimos de uma intensa raiva suburbana, grande activismo político e ambiental e, acima de tudo, sinónimos de um grande não-conformismo. A ideia do “TU podes fazer uma diferença. Não baixes os braços!” Impossível esquecer o concerto que deram à frente da companhia petrolífera Exxon aquando do grande derrame de crude do Exxon Valdez. Criaram aí o conceito de ‘concerto-guerrilha’, estacionando um camião na 6.ª Avenida de Nova Iorque e dando um concerto de protesto para quem quisesse ouvir.
Haverá certamente bandas que vendem mais, bandas que são mais populares, mas poucas conseguiram agarrar, representar e encarnar mesmo, todo um estilo de vida cultural, político e social de um país como os Midnight Oil fizeram. Eles são a expressão do povo australiano. Mas ao mesmo tempo souberam manter a abertura suficiente para poderem ser apreciados, ouvidos, entendidos e integrados por qualquer outro povo do Mundo, uma vez que os assuntos que eles abordam, infelizmente, não são exclusivos da Austrália. Australianos sim, mas sempre habitantes do mundo.

É preciso realçar que, na minha opinião, este estilo altamente interventivo da banda é assumido com grande ponderação; isto é, não se trata de algo que nos seja imposto, “esfregado na cara”, não é forçado nem “panfletário”. No fundo são uma banda de rock e não um partido (obviamente, o vocalista, Peter Garrett sentiu necessidade de actuar integrado num partido e é hoje deputado pelo Partido Trabalhista...).
Ou seja, a mensagem por eles consciente-
mente transmitida é obviamente reconhe-
cível e já foi ‘apropriada’ por outros no passado, e sê-lo-á sempre no futuro. Falar de questões ambientais, políticas, sociais e humanas será sempre tentadoramente fácil. A diferença é que os Oils fazem-no com uma mestria invejável, sem preocupações moralizantes ou de passar sermões. Muito longe disso. A sua mensagem é-nos transmitida de forma extremamente natural, nada forçada, como quem está a contar uma história, ou como quem quer que algo não seja esquecido.
É aqui que para mim reside a beleza e poesia desta banda, única para mim: conseguirem abordar estes temas algo delicados duma forma inteligente, suave, mas sem perderem a força e o vigor necessários. É preciso uma grande habilidade para pegar em temas como estes e não caírem no excesso demagogo. E os Midnight Oil tem essa habilidade. A habilidade de dizerem o que querem, mantendo sempre o bom gosto.
“Diesel And Dust” é um álbum onde estas qualidades brilham de facto. É dedicado ás questões aborígenes da Austrália e ao modo como os ‘brancos’ trataram a terra que tomaram. A extrapolação pode ser feita a meu ver para um âmbito mais geral e para o que o Homem fez à Terra em que vive. É esta perspectiva que eleva este álbum aos píncaros: enquanto cantam sobre temas intrinsecamente australianos, há espaço suficiente para qualquer um de nós estabelecermos uma relação com as canções. Por exemplo: o hino “Beds Are Burning” fala das terras tomadas aos aborígenes e da necessidade de lhes serem devolvidas: “The time has come/ to say fair’s fair/ to pay the rent/ to pay our share”. Mas também acaba por ser relacionável com questões mais gerais, nomeadamente através do genial refrão: “how can we dance when our earth is turning, how do we sleep while our beds are burning”.
“Put down that weapon” é mais low profile, mas é preciso destacar o pulsar do baixo que aumenta a tensão crescente da canção (símbolo da crescente corrida ao armamento?): “put down that weapon or we’ll all be gone/you must be crazy if you think you’re strong”.
“Warakuna” é mais uma canção forte em que Garret canta versos bastante intensos, também do ponto de vista aborígene: "Some people laugh, some never learn/This land must change or land must burn./Some people sleep, some people yearn;/This land must change or land must burn./Diesel and dust is what we breathe;/This land don't change and we don't leave." A intensidade destes versos é surpreendente ao ilustrar as dificuldades que uma comunidade (chamada Warakurna) teve de atravessar para se submeter à ‘lei dos brancos’: "
White law could be wrong,/Black law must be strong."
“The Dead Heart” é para mim, a canção mais genial do álbum. Mais uma vez
trata do assunto aborígene e refere-se ao reconhecimento do Rochedo Ayers como um local sagrado dos aborígenes e, como tal, protegido pela ‘lei branca’. É um local sagrado e habitado por vários seres ‘ancestrais’ dos vários clãs. Daí: "We carry in our hearts the true country/And that cannot be stolen/We follow in the steps of our ancestry/And that cannot be broken."
No fundo, esta álbum genial acaba por relatar a luta dum povo, ou de um determinado grupo de pessoas, não contra o progresso, mas sim contra a violentação mecanizada e desenfreada e consequente destruição do que existe: "I don’t wanna sell my soul to him/Mechanize, city bursts and farmers die/They cry" (in “Sell My Soul”).
Em suma, estamos perante um verdadeiro álbum épico que retrata gloriosamente a luta que, no fundo todos nós, temos de fazer na defesa dos nossos direitos e da nossa vida e maneira de ser. É uma luta difícil, mas como é dito na canção “Sometimes”:
“Sometimes you’re beaten to the call/Sometimes you’re taken to the wall/But you don’t give in”.

Um album 10/10, 5 estrelas, ou o que quiserem, em que todas as cançõs são épicos melódicos por excelência!

4 comentários:

maria condado disse...

post muito bem argumentado.
Ainda bem que vi o DVD, assim entendo melhor o que aqui escreves.

Bola Oito disse...

Sabes como é...é uma banda que me me é muito cara e me diz muito. ;)

E sim, ver o DVD ajuda e muito a entender o que faz mexer estes australianos irrequietos.


Obrigado por leres. :)

Taradão disse...

Excelente Post.

Que qualidade.

Bola Oito disse...

Homessa!!!Obrigado!

Tenho pena que tenham acabado. Principalmente depois do facto de terem um último álbum tão bom (Capricornia), o qual se seguiu a dois mais 'fraquitos'.

Diz quem viu que o concerto que deram para auxiliar as vítimas do tsunami foi demolidor.

O gajo devia mas é largar a política e voltar para aqui.