Esta foi uma daquelas bandas que descobri na rádio (ver post Super FM). Lembro-me de ouvir a “Beds Are Burning” e ficar realmente abismado com a inteligência das letras (enganadoramente simples) e com a melodia refrescante da banda. Na altura tinha acabado de sair o álbum “Earth And Sun And Moon”, e foi este que melhor me fez conhecer os Midnight Oil. Canções como “My Country”, “Renaissance Man”, “Truganini”,” Outbreak of Love”, etc fizeram parte dos meus dias até…bem, até hoje! Lembro-me perfeitamente, por exemplo, do dia da semana e da hora em que pela primeira vez ouvi o “Outbreak Of Love”. Quando percebi que era a mesma banda do “Beds Are Burning” fiquei imediatamente conquistado e tornei-me um fã absoluto desta banda excepcional. Sem contar com dois EP’s e um Greatest Hits com uns temas nunca antes lançados, só me falta o primeiro e homónimo álbum.Apesar dos Midnight Oil já andarem a lançar excelentes álbuns pelo menos desde 1979, eram apenas um grande nome na Austrália, ajudados também pelas electrizantes e energéticas prestações ao vivo.

Foi em 1987 com este álbum e com o single “Beds Are Burning” que explodiram mundialmente.
Os Midnight Oil pautaram-se desde o início por uma consciência altamente política, social, ambiental e humanitária. Esta visão era apresentada por meio duma música bastante agressiva e eléctrica que ia buscar muitas influências à atitude punk do início dos anos 80.
Contudo, este álbum “Diesel and Dust” marca o início (já antes timidamente esboçado) duma nova fase para a banda, mantendo as temáticas que tão caras lhes eram, mas com um maior cuidado na apresentação e na composição, abrindo espaço à melodia e á harmonia. Este passo tornou-os mais “acessíveis” e “audíveis”, o que lhes granjeou também alguns “narizes torcidos” dos fãs mais aguerridos, como é costume aliás nestas situações.
Seja como for foi assim que se popularizaram pelo mundo fora, EUA incluídos. Os dois álbuns que se seguiram, “Blue Sky Mining” e “Earth and Sun and Moon” formaram com este uma trilogia que marca a época áurea dos Midnight Oil, quando eles deixaram o underground e partiram á conquista do Mundo. Sem, no entanto, perderem qualquer das qualidades antes apontadas. Sempre foram, para mim, o protótipo duma banda
honesta e trabalhadora. Pode-se não gostar da banda, da música ou da forma como eles agiam, mas não se pode nunca negar a postura honesta e confiante que eles tinham em si e no seu trabalho. Afinal não é qq banda que acabou de ‘quebrar’ o mercado internacional que acede a fazer uma digressão pelo interior da Austrália, em 3 jipes, atravessando os desertos australianos debaixo dum calor abrasador para dar ‘concertos’ cujo único público era composto por tribos aborígenes! Rídiculo? Talvez haja quem ache isso. Pessoalmente acho que é um motivo de orgulho. Para eles e para os seus fãs.Sei que há quem não suporte esta faceta ‘demasiado’ interventiva da banda. É uma maneira de ver, e qto a isso não se pode fazer nada. A cada qual, o seu.
Os Oils têm sido considerados como sinónimos de uma intensa raiva suburbana, grande activismo político e ambiental e, acima de tudo, sinónimos de um grande não-conformismo. A ideia do “TU podes fazer uma diferença. Não baixes os braços!” Impossível esquecer o concerto que deram à frente da companhia petrolífera Exxon aquando do grande derrame de crude do Exxon Valdez. Criaram aí o conceito de ‘concerto-guerrilha’, estacionando um camião na 6.ª Avenida de Nova Iorque e dando um concerto de protesto para quem quisesse ouvir.
Haverá certamente bandas que vendem mais, bandas que são mais populares, mas poucas conseguiram agarrar, representar e encarnar mesmo, todo um estilo de vida cultural, político e social de um país como os Midnight Oil fizeram. Eles são a expressão do povo australiano. Mas ao mesmo tempo souberam manter a abertura suficiente para poderem ser apreciados, ouvidos, entendidos e integrados por qualquer outro povo do Mundo, uma vez que os assuntos que eles abordam, infelizmente, não são exclusivos da Austrália. Australianos sim, mas sempre habitantes do mundo.É preciso realçar que, na minha opinião, este estilo altamente interventivo da banda é assumido com grande ponderação; isto é, não se trata de algo que nos seja imposto, “esfregado na cara”, não é forçado nem “panfletário”. No fundo são uma banda de rock e não um partido (obviamente, o vocalista, Peter Garrett sentiu necessidade de actuar integrado num partido e é hoje deputado pelo Partido Trabalhista...).

Ou seja, a mensagem por eles consciente-
mente transmitida é obviamente reconhe-
cível e já foi ‘apropriada’ por outros no passado, e sê-lo-á sempre no futuro. Falar de questões ambientais, políticas, sociais e humanas será sempre tentadoramente fácil. A diferença é que os Oils fazem-no com uma mestria invejável, sem preocupações moralizantes ou de passar sermões. Muito longe disso. A sua mensagem é-nos transmitida de forma extremamente natural, nada forçada, como quem está a contar uma história, ou como quem quer que algo não seja esquecido.
É aqui que para mim reside a beleza e poesia desta banda, única para mim: conseguirem abordar estes temas algo delicados duma forma inteligente, suave, mas sem perderem a força e o vigor necessários. É preciso uma grande habilidade para pegar em temas como estes e não caírem no excesso demagogo. E os Midnight Oil tem essa habilidade. A habilidade de dizerem o que querem, mantendo sempre o bom gosto.
“Diesel And Dust” é um álbum onde estas qualidades brilham de facto. É dedicado ás questões aborígenes da Austrália e ao modo como os ‘brancos’ trataram a terra que tomaram. A extrapolação pode ser feita a meu ver para um âmbito mais geral e para o que o Homem fez à Terra em que vive. É esta perspectiva que eleva este álbum aos píncaros: enquanto cantam sobre temas intrinsecamente australianos, há espaço suficiente para qualquer um de nós estabelecermos uma relação com as canções. Por exemplo: o hino “Beds Are Burning” fala das terras tomadas aos aborígenes e da necessidade de lhes serem devolvidas: “The time has come/ to say fair’s fair/ to pay the rent/ to pay our share”. Mas também acaba por ser relacionável com questões mais gerais, nomeadamente através do genial refrão: “how can we dance when our earth is turning, how do we sleep while our beds are burning”.
“Put down that weapon” é mais low profile, mas é preciso destacar o pulsar do baixo que aumenta a tensão crescente da canção (símbolo da crescente corrida ao armamento?): “put down that weapon or we’ll all be gone/you must be crazy if you think you’re strong”.
“Warakuna” é mais uma canção forte em que Garret canta versos bastante intensos, também do ponto de vista aborígene: "Some people laugh, some never learn/This land must change or land must burn./Some people sleep, some people yearn;/This land must change or land must burn./Diesel and dust is what we breathe;/This land don't change and we don't leave." A intensidade destes versos é surpreendente ao ilustrar as dificuldades que uma comunidade (chamada Warakurna) teve de atravessar para se submeter à ‘lei dos brancos’: "White law could be wrong,/Black law must be strong."
“The Dead Heart” é para mim, a canção mais genial do álbum. Mais uma vez
trata do assunto aborígene e refere-se ao reconhecimento do Rochedo Ayers como um local sagrado dos aborígenes e, como tal, protegido pela ‘lei branca’. É um local sagrado e habitado por vários seres ‘ancestrais’ dos vários clãs. Daí: "We carry in our hearts the true country/And that cannot be stolen/We follow in the steps of our ancestry/And that cannot be broken."
No fundo, esta álbum genial acaba por relatar a luta dum povo, ou de um determinado grupo de pessoas, não contra o progresso, mas sim contra a violentação mecanizada e desenfreada e consequente destruição do que existe: "I don’t wanna sell my soul to him/Mechanize, city bursts and farmers die/They cry" (in “Sell My Soul”).
Em suma, estamos perante um verdadeiro álbum épico que retrata gloriosamente a luta que, no fundo todos nós, temos de fazer na defesa dos nossos direitos e da nossa vida e maneira de ser. É uma luta difícil, mas como é dito na canção “Sometimes”: “Sometimes you’re beaten to the call/Sometimes you’re taken to the wall/But you don’t give in”.
Um album 10/10, 5 estrelas, ou o que quiserem, em que todas as cançõs são épicos melódicos por excelência!
É aqui que para mim reside a beleza e poesia desta banda, única para mim: conseguirem abordar estes temas algo delicados duma forma inteligente, suave, mas sem perderem a força e o vigor necessários. É preciso uma grande habilidade para pegar em temas como estes e não caírem no excesso demagogo. E os Midnight Oil tem essa habilidade. A habilidade de dizerem o que querem, mantendo sempre o bom gosto.
“Diesel And Dust” é um álbum onde estas qualidades brilham de facto. É dedicado ás questões aborígenes da Austrália e ao modo como os ‘brancos’ trataram a terra que tomaram. A extrapolação pode ser feita a meu ver para um âmbito mais geral e para o que o Homem fez à Terra em que vive. É esta perspectiva que eleva este álbum aos píncaros: enquanto cantam sobre temas intrinsecamente australianos, há espaço suficiente para qualquer um de nós estabelecermos uma relação com as canções. Por exemplo: o hino “Beds Are Burning” fala das terras tomadas aos aborígenes e da necessidade de lhes serem devolvidas: “The time has come/ to say fair’s fair/ to pay the rent/ to pay our share”. Mas também acaba por ser relacionável com questões mais gerais, nomeadamente através do genial refrão: “how can we dance when our earth is turning, how do we sleep while our beds are burning”.“Put down that weapon” é mais low profile, mas é preciso destacar o pulsar do baixo que aumenta a tensão crescente da canção (símbolo da crescente corrida ao armamento?): “put down that weapon or we’ll all be gone/you must be crazy if you think you’re strong”.
“Warakuna” é mais uma canção forte em que Garret canta versos bastante intensos, também do ponto de vista aborígene: "Some people laugh, some never learn/This land must change or land must burn./Some people sleep, some people yearn;/This land must change or land must burn./Diesel and dust is what we breathe;/This land don't change and we don't leave." A intensidade destes versos é surpreendente ao ilustrar as dificuldades que uma comunidade (chamada Warakurna) teve de atravessar para se submeter à ‘lei dos brancos’: "White law could be wrong,/Black law must be strong."
“The Dead Heart” é para mim, a canção mais genial do álbum. Mais uma vez
trata do assunto aborígene e refere-se ao reconhecimento do Rochedo Ayers como um local sagrado dos aborígenes e, como tal, protegido pela ‘lei branca’. É um local sagrado e habitado por vários seres ‘ancestrais’ dos vários clãs. Daí: "We carry in our hearts the true country/And that cannot be stolen/We follow in the steps of our ancestry/And that cannot be broken."No fundo, esta álbum genial acaba por relatar a luta dum povo, ou de um determinado grupo de pessoas, não contra o progresso, mas sim contra a violentação mecanizada e desenfreada e consequente destruição do que existe: "I don’t wanna sell my soul to him/Mechanize, city bursts and farmers die/They cry" (in “Sell My Soul”).
Em suma, estamos perante um verdadeiro álbum épico que retrata gloriosamente a luta que, no fundo todos nós, temos de fazer na defesa dos nossos direitos e da nossa vida e maneira de ser. É uma luta difícil, mas como é dito na canção “Sometimes”: “Sometimes you’re beaten to the call/Sometimes you’re taken to the wall/But you don’t give in”.
Um album 10/10, 5 estrelas, ou o que quiserem, em que todas as cançõs são épicos melódicos por excelência!

4 comentários:
post muito bem argumentado.
Ainda bem que vi o DVD, assim entendo melhor o que aqui escreves.
Sabes como é...é uma banda que me me é muito cara e me diz muito. ;)
E sim, ver o DVD ajuda e muito a entender o que faz mexer estes australianos irrequietos.
Obrigado por leres. :)
Excelente Post.
Que qualidade.
Homessa!!!Obrigado!
Tenho pena que tenham acabado. Principalmente depois do facto de terem um último álbum tão bom (Capricornia), o qual se seguiu a dois mais 'fraquitos'.
Diz quem viu que o concerto que deram para auxiliar as vítimas do tsunami foi demolidor.
O gajo devia mas é largar a política e voltar para aqui.
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