Bom, desta vez não é um álbum propriamente dito, mas sim um EP. Mas acho que vale a pena falar dele aqui por várias razões. Primeiro pq foi a primeira coisa que ouvi do Jeff Buckley como deve ser. Segundo porque se trata de um EP, é certo, mas já foi reeditado em álbum duplo. E 'last but definitely NOT the least', pq a prestação do Jeff Buckley nestas 4 'amostras' é de tal forma intensa, sentida e emocional, que os 20 minutos e tal do disco parecem muito mais, tal é a quantidade de 'coisas' que se passam naquelas 4 canções.É impossível não nos sentirmos absorvidos pela entrega e paixão de Buckley nestas 4 faixas. Um 'cantautor' algo desconfortável ainda, mas com vontade de lutar e de se 'mostrar' e expor, para de alguma forma alcançar o seu sucesso pessoal.
Jeff não gostava de ser considerado um cantor folk (isso era o pai dele, Tim), mas foi realmente no circuito de bares/cafés nova iorquinos que ele, sozinho com a sua guitarra, começou a construir o seu nome e a tornar-se conhecido pelas suas prestações. O Sin-É, pequeno bar irlandês em Nova Iorque (para as mais curiosas ficava no East Village, embora já tenha fechado, tendo mais tarde aberto novamente noutra parte da cidade), foi o palco onde, por duas noites no Verão de 1993, Jeff Buckley encantou e espantou os clientes deste pequeno café.
Este EP foi lançado antes do álbum ‘Grace’, talvez como uma espécie de ‘trailer’ do que se aproximava. Principalmente destacava-se a voz de Buckley. Uma voz que facilmente deslizava entre o angelical e o quasi-demoníaco.
Estas 4 canções conseguiram esse objectivo. É de facto a voz que sobressai neste disco,
principalmente porque aqui temos oportunidade de a apreciar sem grandes factores distractivos, como será a banda completa. Aqui temos apenas a voz e a guitarra, combinadas e entre-ajudando-se de forma perfeita, quase num ‘show off’ de capacidades, alguns dirão.Encontramos então aqui um Buckley jovem e cheio de energia, ainda intocado pela fama e pela lenda. Aclamado pela sua voz, é preciso, no entanto, não esquecer o excelente e altamente criativo guitarrista que ele era, capaz dos momentos do maior low profile, mas também de algumas explosões de virtuosismo e, outra vez, quase show off.
No entanto, era realmente a voz que o elevou aos píncaros, uma voz que conseguia ir do falsetto mais frágil à voz mais cavernosa e gutural, a tal dicotomia anjo/demónio.
As duas primeiras faixas do EP aparecerão mais tarde no “Grace”, mas de certa forma algo diferentes.
Em “Mojo Pin” Buckley anuncia que “this song is about a dream” e de facto assim parece, quando começa a tocar de forma gentil e calma quase minimal, mas a outra faceta revela-se a meio da canção quando gradualmente o ritmo começa a aumentar e o gentil transforma-se em raiva, o cantar em gritar; e mal nos acabámos de nos ‘ajustar’ a esta explosão, rapidamente ela desaparece e tudo volta ao ‘normal’ num quase fade out.
“Eternal Life” é uma excelente e eléctrica canção rock no álbum de estúdio, mas aqui transforma-se em algo mais íntimo, um verdadeiro manifesto pessoal, quase como que uma declaração de raiva e alienação. Temos aqui uma bom exemplo do poder da sua voz que se destaca sozinha sem a parte ‘mais pesada’ dos instrumentos que ‘enchem’ a versão de estúdio.A partir daqui...a excelência. Deixamos de estar perante um uma estrela de rock em potência e em ascensão para passarmos a ver um músico que é ao mesmo tempo fã de música e quer divertir-se enquanto diverte os outros a tocar.
“Je N’En Connais Pas La Fin” é uma canção de Edith Piaf, completamente ‘apropriada’ por Buckley. E é, para mim. O melhor momento do disco. Uma performance perfeita e daquelas que certamente fez toda a gente parar naquele apertado café, completamente captivados, mesmerizados pela ‘magia’ que vinha do palco exíguo e com medo de quebrar essa ‘magia’ com o mínimo gesto ou sussurro. Esta versão tornou-a verdadeiramente de Jeff Buckley. Simplesmente perfeita e emocionalmente muito exigente.
A faixa final é outra versão: “The Way Young Lovers Do” de Van Morrisson. Outro grande momento do disco. É aqui que a ‘loucura’ começa e Buckley mostra um virtuosismo antes muito contido e controlado. Parece mesmo que é aqui que ele solta a ‘fera’ e deixa-a correr á vontade. ‘Show Off’ dirão alguns...talvez. pessoalmente prefiro vê-la como mais uma brutal e magnífica prestação dum cantor, compositor e guitarrista muito acima da média e que simplesmente não devemos esquecer.
Sem se prender com um determinado estilo, género ou influência, Buckley foi um dos músicos mais importantes da década passada, infelizmente não teve tempo para confirmar em pleno esta afirmação, mas acho que se pode presumir que é correcta.
A sua voz alta, clara, reminiscente, em certos momentos, da de Robert Plant canta sobre relacionamentos, sobre a vida, sobre cidades, sobre pessoas. Nunca lhe faltou coragem de assumir aquelas influências, sempre com a confiança e criatividade necessárias para explorá-las e fazer as suas próprias interpretações.
Este EP foi expandido e reeditado no décimo aniversário do EP. Inclui agora o concerto inteiro, onde ainda se encontram versões de Led Zeppelin, Billie Holliday, Bob Dylan, Nusrath Fatah Ali Khan, etc. Consta que se ele fosse vivo esta edição (bem como muitas outras) não conheceriam a luz do dia......mas pronto, seja como for, elas aí estão. E este “Live At Sin-È – The Legacy Edition” é um item a ter em conta.E que eu pretendo adquirir quando o vir. Tal como o EP, mostra a essência do talento de Jeff Buckley.

2 comentários:
Post perfeito
está pouca gente no bar ( pelo menos é o que a imagem mostra ), e isto pôs-me a pensar ... ele agora é considerado um génio , míto ou icon. Naquela altura talvez fosse apenas um gajo a tocar no bar, não sei.
Mas onde quero chegar é que vale a pena procurarmos a autenticidade e não nos preocuparmos com o sucesso imediato das nossas acções.
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