quinta-feira, novembro 10, 2005

Álbum da semana


O álbum que escolhi para dizer umas patacoadas nesta semana não é, provavelmente, o melhor álbum desta banda. Se calhar, não é sequer o meu preferido, mas é, de certeza o que me marcou mais. Mas seja como for, penso que é pacífico o entendimento de que se trata de um álbum clássico. Estou a falar do “The Joshua Tree” dos U2. Dá para ver acho eu!
Porque é que é especial e digno de ser um álbum de referência? Bom, para além do facto objectivo de conter grandes clássicos da música pop/rock dos anos 80 e, porque não, de sempre, é também o álbum que me apresentou os U2. Lembro-me de, na altura, mais do que ouvir as canções, VER os videos na televisão. Os videos do “Where the streets have no name”, “With or without you” e principalmente “I still haven’t found what I’m looking for”, pertencem realmente ao meu imaginário infanto-adolescente (raio de palavra composta), e representam um meu primeiro e embrionário ‘acordar’ para a música. Nesses tempos eram os U2, os Simon & Garfunkel, os Beach Boys, os Beatles, etc, etc.
Este álbum foi também aquele que trouxe o sucesso total e global para os U2. Foi o que mais vendeu até àquela data, chegando ao primeiro lugar dos tops, poucas semanas depois de ter sido lançado. Foi o primeiro n.º 1 nos EUA, o que até se compreende uma vez que este álbum marcou o início em força (antes preparada com o EP “Wide Awake in America”) da chamada fase americana do grupo, mais tarde concretizada com uma digressão, filmada e gravada sob a designação de “Rattle And Hum”. O som que a banda nos mostra neste disco é muito mais acessível e agradável á generalidade do público. Aquele típico som de ‘combate’, de ‘confrontação’, mais punk dos U2 dos princípios dos anos 80 tinha desaparecido. O álbum ao vivo “Under A Blood Red Sky” tinha aliás marcado o fim dessa primeira era de raiva resumindo os 3 primeiros álbuns, “Boy”, “War” e “October”, numa prestação cheia de força e vigor. O álbum seguinte, “The Unforgettable Fire”, muito pela influência de Brian Eno e Daniel Lanois, já tinha assinalado uma mudança assinalável de som, mostrando uma banda mais contida e mais emotiva. Mas é um álbum de transição, e algo difícil de ouvir.
É com o “The Joshua Tree” que os U2 aperfeiçoam e dominam esta sonoridade mais introspectiva, mais emocional, e muito mais centrada no ‘eu’ interior, embora sem descurarem os aspectos do costume, quer políticos, quer sociais, como se pode ver nas canções “Mothers of the Disappeared” e “Bullet The Blue Sky”. Mas esses aspectos deixaram de ser o motor principal da banda. A raiva deu lugar à insatisfação e à busca de algo indefinido.
Foi com este álbum que a Rolling Stone os apelidou de “Rock’s Hottest Ticket”, e de “Maior banda de rock do planeta”.
A própria capa do álbum tornou-se um clássico e possibilitava uma identificação imediata da
banda e do álbum. Aliás, a foto que vemos na capa, a banda num deserto, provavelmente americano, indicia também alguma mudança na sonoridade, e uma maior introspectividade. Mais à frente voltarei a falar do simbolismo da capa.
“The Joshua Tree” contém uma série razoavelmente eclética de canções, série essa extraordinariamente conduzida por um fio condutor comum. Todas, no entanto, são peças típicas dos U2. Há canções sobre fé e busca incessante por algo que colmate a sensação de desilusão e insatisfação ("Where The Streets Have No Name, "I Still Haven’t Found What I'm Looking For"). Há várias mensagens e imagens bíblicas, a começar pela capa (Josué é uma figura da Bíblia, e é tamb´m a tradução grega da palavra hebraica que significa 'Jesus') e a terminar em várias referências líricas, reforçando a ideia de que se trata dum álbum onde a fé, o acreditar em algo, é o ponto fulcral.
Aliás, a questão da ‘fé’ é algo que está de acordo com a tal fase americana do grupo. Encontramos nos 3 álbuns que formam esta fase, desde o “The Unforgettable Fire” até ao “Rattle and Hum”, passando obviamente pelo “The Joshua Tree”, uma grande influência da ‘soul’, dos blues e mesmo do gospel norte-americano.
Trata-se dum álbum que nos conta várias histórias humanas, sobre os ideais da humanidade, e como cada um lida com eles ou luta para os alcançar e defender, enfrentando momentos de dúvida, de incerteza e, por vezes de desespero. Seja problemas de toxicodependência na “Running to stand still”, violência terrorista governamental em “Mothers of the Disappeared”, a injustiça social em “Red Hill Mining Town”. ou a morte dum amigo em “One Tree Hill” (Gregg Carrol, amigo e assistente do Bono a quem o álbum é dedicado).
Pode-se quase dizer que, enquanto na fase anterior, os álbuns quase se cingiam a comentar as várias forças exteriores a que o indivíduo está sujeito, este “The Joshua Tree”, volta-se para o interior desse mesmo indivíduo, para a sua força e determinação interior. A sua vontade e necessidade de lutar contra aquelas forças, seja por si, seja pelos outros. E nessa luta há sempre uma esperança.
A própria árvore (não sei como se chama em português) é uma árvore do deserto que consegue prosperar MESMO no ambiente seco em que vive. Um ser que consegue ultrapassar as suas dificuldades inerentes. É uma imagem quase épica da Vida no meio da sua quase ausência. Eis a mensagem de esperança e força no meio de todos os medos e dúvidas. Como o Bono canta: “I have run, i have crawled, i have scaled (...) But I still haven’t found what I’m looking for.” MAS: “I’m still running”! Ou quando em “One Tree Hill”, dirigindo-se ao amigo falecido lhe diz: “I will see you again when the stars fall from the sky and the moon has turned red over one tree hill”.
Em suma, “The Joshua Tree” mostra um lado mais frágil dos U2. Uma banda que nos tinha habituado a grandes afirmações plenas de certeza, lança agora um álbum onde mostram as suas dúvidas e insatisfações. Os motivos políticos não desapareceram, mas as coisas tornaram-se de repente muito mais pessoais e introspectivas. A evolução e maturidade da banda é clara. E, penso que se pode dizer que o “Bullet The Blue Sky” (escrita após uma visita de Bono a S.Salvador onde assistiu aos resultados da intervenção armada americana) prepara de alguma forma a próxima evolução, mais ‘mecânica’ do "Achtung Baby".

Um dos melhores álbuns pop/rock dos anos 80. Um álbum que foi necessário ouvir então, e que ainda hoje o é. “The Joshua Tree” é um álbum definitivamente marcante. Mesmo para quem ache que o “Achtung Baby” é o melhor e mais interessante. Talvez seja. Mas a nível puramente emocional não me parece.


2 comentários:

Taradão disse...

Um belo álbum..Há muito que não o oiço.

Anónimo disse...

Grande album duma outrora grande banda, sem duvida, a par com o Unforgetable Fire.

Mas fica ainda atrá do genial War !!

É claro que a partir daqui, os U2, começaram a decambar por completo, o Achtung Baby ainda se ouve bem, a partir dai é que é um salve-se quem puder, ou melhor, salve-se algumas faixas dos albums seguntes.