Sou fã dos livros do Nick Hornby. Como tal foi sempre com antecipação que vi as adaptações ao cinema de duas das suas obras: “High Fidelity” com o John Cusack e o “About A Boy” com o Hugh Grant. Ambas as adaptações foram feitas bastante bem, respeitando no essencial o espírito do livro e da história.Em ambos os filmes ressalta uma coisa extremamente importante que é a banda sonora. Importante porque, sendo o Hornby um freak do pop/rock e antigo crítico musical, a música faz sempre parte da história. Assim, se no “High Fidelity” o próprio Cusack fez uma compilação das canções, umas que são mencionadas no livro e outras que ele achou que se integravam bem, no “About A Boy” encontramos uma banda sonora especialmente composta para o filme. Uma banda sonora pop.
Quando vi o filme surpreendeu-me muito a música, pois estava impressionantemente de acordo com o ambiente e espírito do livro. Na verdade achei a música e as canções sublimes e geniais em toda a sua simplicidade e ingenuidade. Uma simplicidade e ingenuidade enganadoras pq escondem muito mais. E foi esse o meu primeiro contacto consciente com o Sr. Damon Gough, mais conhecido como Badly Drawn Boy (BDB). Tratei de adquirir o cd e ultimamente ouvi-o novamente e pude confirmar como é bom.
“About A Boy” foi o álbum que se seguiu à estreia em 2000 com “The Hour of Bewilderbeast”, considerado um dos melhores discos desse ano. Daqui resultava a famosa “pressão do segundo álbum”. Foi uma opção inteligente e corajosa por parte do Damn Gough fazer seguir o seu primeiro álbum com uma banda sonora. Enquanto discutimos se a banda sonora pode ser considerada o seu “segundo álbum” (eu acho que sim), ou não, teve ele tempo para compôr o seu melhor álbum até á data: “Have You Fed The Fish?” Mas isso é outra história.
Pessoalmente este álbum é o segundo álbum do BDB e, incidentalmente, é a banda sonora dum filme. De facto a música que aqui encontramos não só é perfeita para o filme, servindo com precisão a respectiva acção e ajudando a contar a história, como também é música que se sustenta por si mesma, isto é, não é necessário ler o livro ou ver o filme para apreciar a música (se bem que as referências a um “pato morto” são intrigantes para quem não conheça a história!). Encontrar uma banda sonora composta para um filme, que se adeque na perfeição e ao mesmo tempo possa ser ouvida sem necessidade do suporte visual é algo muito raro no mundo das BS.
Aliás, o próprio Nick Hornby refere no seu livro “31 Canções” que quando soube que iam adaptar o “About A Boy” ao cinema pensou imediatamente no BDB. Não disse por vergonha ou falta de confiança, mas a verdade é que foi surpreendido depois pelo facto de o realizador ter escolhido precisamente o BDB para ‘musicar’ o filme. A opinião que seria ele o melhor a conseguir transmitir a história pela sua música era portanto consensual.
Quanto à música propriamente dita que podemos encontrar? É Pop. Música pop no seu melhor. O álbum tem 16 faixas, sendo 9 canções e 7 pequenos interlúdios instrumentais.
Estas pequenas peças são verdadeiramente deliciosas, captando na perfeição o humor do livro e dispondo-nos para a próxima canção/cena.
Mas é realmente naquelas 9 canções que reside a verdadeira genialidade do disco. São enganadoramente simples. As melodias agradáveis e muito memoráveis escondem um conjunto de excelentes e pensativos poemas e várias harmonias graciosas.

São canções belíssimas que nos surgem pejadas de referência a vários nomes ou épocas da música pop, desde Brian Wilson e Beach Boys, passando pelos Beatles, Bruce Springsteen na sua faceta mais calma, Paul McCartney, The Byrds, Simos & Garfunkel, etc etc. Tudo misturado e apresentado duma forma graciosa e nada forçada com um extremo bom gosto e contenção. Não há show off aqui. É um álbum mais ‘mid-tempo’, pouco rockeiro, assim captando melhor o ambiente meio ‘agridoce’ do livro. Há alegrias e tristezas, momentos contemplativos e humor.
Há, no entanto, duas canções que elevam o álbumainda mais e que justificam o facto de ser um álbum digno de menção.
A extraordinária “Silent Sigh”, uma composição simples mas muito memorável. O video desta canção foi a primeira coisa que eu ouvi do BDB, antes mesmo de saber que ia haver um filme. Ouvindo as letras e vendo o video reconheci de imediato as referências ao livro, mas não tinha a certeza. Mais uma vez o “pato morto” foi uma boa pista.E depois a “Something To Talk About” que tem uma melodia tão aditiva e ‘orelhuda’ que acaba por funcionar como ‘motivo’ pelo álbum fora, nomeadamente em algumas das faixas instrumentais.
Em suma, um excelente e delicioso álbum de música pop. Impossível não nos deixarmos absorver alegremente por ele. Foi o meu primeiro contacto com a música do Badly Drawn Boy e fiquei convencido. Assim, para quem aprecia boa música pop, este álbum é do melhor que há nos dias de hoje. Muito bem composto e tocado, sem grandes presunções, passa por nós quase em 'low profile'....e só depois de o termos ouvido é que se percebe o quanto dele ficou cá...

2 comentários:
Mais que aprovado este albúm da semana !! Foste tu que me " apresentaste " a este albúm e a este músico que eu tanto gosto. Sinto-me uma fã ( e é dificil uma pessoa sentir-se assim ) das suas músicas e letras. Sei que provavelmente não será grande coisa ao vivo, visto que os seus albuns vivem muito dos arranjos. Mas mesmo assim continuo com a ideia romântica de o ouvir ao piano num bar pequeno em Londres. Muitas pessoas devem achá-lo uma seca, eu até consigo compreender...as suas músicas são experimentais, optimistas, coloridas, descomplexadas, fora de modas e estilos. Têm sido uma grande banda sonora dos meus ultimos anos. Estou com vontade que venha um novo albúm .
E já agora Sr. Fino obrigada por me teres ensinado tanto de musica.
Hoje em dia respeito muito mais tudo o que é música.
Ora...não tens de quê. O que tem piada é q eu "apresentei-te" sim, mas hoje tu és muito mais fã do que eu (o que quer que isto signifique). É interessante!
Anyway, bos descrição da música dele....realmente falta-me capacidade de síntese.
PS: a sensação de ser o único fã no país de qq coisa até que é algo agradável, não? ; )
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