Originalmente publicada em 12 volumes entre 1986 e 1897, depois reunidos e republicados num único volume, lançando assim o conceito de “graphic novel”, Watchmen foi a única obra de BD a receber o conceituado Hugo Award de ficção científica e também é a única graphic novel presente na lista “The Best 100 English Language Novels From 1923 To The Present” da revista TIME.Considerada por alguns como o “Citizen Kane” da BD, esta obra apresenta uma ambição e fôlego desemesurados para a altura em que foi publicada, quando os comics eram vistos essencialmente como literatura infanto/juvenil. Mas de infantil Watchmen não tem nada.
Sob uma enganadora aparência bastante clássica e colorida em termos de desenhos (uma homenagem declarada as comics dos anos 40/50), esconde-se uma construção narrativa extremamente complexa e impossível de ler como um qualquer livro de comics. Algo que precisa de várias leituras para finalmente se conseguir abarcar o todo.
Apesar do tema da história andar à volta dos chamados “super-heróis”, a verdade é que vai mais além desse pequeno ponto, apresentando uma perspectiva inovadora, apostando numa apresentação e abordagem muito psicológica.
Watchmen relata a história dum grupo de “super-heróis", e as aspas justificam-se porque não se
trata aqui – salvo uma única excepção – de um grupo de pessoas com poderes sobrenaturais, inatos ou adquiridos. Daí ser mais correcto o termo usado no próprio livro: “vigilantes”.Para este grupo os dias de glória já passaram há muito, mas o assassínio de um ex-colega acaba por os colocar relutantemente em acção, apenas para descobrir que aquela morte era apenas o início de uma conspiração muito maior e perturbadora.
A narrativa passa-se em 1985, nuns EUA alternativos, numa altura em que a guerra nuclear com a URSS parece ser mais do que uma mera ameaça.
Watchmen mostra-nos os tais heróis como pessoas reais que se vêem confrontadas com problemas éticos e pessoais complexos, neuróticas quase, com alguma falta de confiança e medo do falhanço, mas que, apesar de tudo são, foram e voltarão a ser heróis por optarem por enfrentar os problemas e medos.
A história é contada com um realismo psicológico implacável, desarmante e quase violento, através de uma série de linhas narrativas paralelas e convergentes no final apocalíptico e através de uma série de excelentes painéis repletos de técnicas e detalhes cinematográficos impressionante. Tal como no cinema o uso de flashbacks é enorme, bem como a utilização de passagens de diários das personagens, um truque simples que faz avançar a narração, colmatando a falta estranha para uma BD de balões de pensamento. As onomatopeias também estão ausentes, mas a verdade é que não se dá pela falta destas técnicas habituais da BD.
O que Watchmen faz é a total e brutal desconstrução do arquétipo, do mito do “super-herói. Alan Moore pretendeu certamente transcender a representação habitual do tema, e apresentar heróis que apresentam falhas e que, como tal, não podem ser naturalmente idolatrados. Estes “super-heróis” não são deuses. O realismo da condição humana é, aqui, a pedra de toque, em oposição à apresentação semi-megalomaníaca, quase fascista tão típica das histórias de super-heróis enquanto seres perfeitos e idealizados. Tudo isto é corriqueiro nos dias de hoje, mas em 1985 foi algo de muito inovador.Uma adaptação ao cinema, por tudo isto, é uma boa notícia; mas também pode ser uma má notícia. Tanto pormenor, tanta metáfora e simbologia parecem tornar Watchmen algo impossível de filmar e de enquadrar nos padrões de Hollywood. Mas pronto, há sempre a esperança de as coisas saírem bem. O realizador Zack Snyder fez um bom trabalho a adaptar “300”, outra graphic novel, de Frank Miller. E felizmente que os rumores que circulavam há uns anos que davam o Schwarzenegger como certo numa das personagens já não existem hoje.
Trailer fictício:
Zack Snyder sobre Watchmen
Alan Moore sobre Watchmen
http://watchmenmovie.warnerbros.com/
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