E eis que Woody Allen regressa a Londres, após "Match Point".
Aqui encontramos duas gerações de casais, ambos atravessando crises conjugais. De um lado, Alfie e Helena que, depois de 40 anos de casamento feliz, se divorciam. Ele quer voltar a sentir a adrenalina da juventude e viver a sua vida, mesmo que seja ao lado de uma loiraça bimba de todo o tamanho; ela, humilhada e deprimida, encontra apoio numa vidente e a convence que não tardará até encontrar um novo amor (o tal dark stranger do título). Do outro lado estão a filha de ambos, Sally, e o marido, Roy que, apesar das aparências, também se encontram em rota de colisão: ela tem uma paixão secreta pelo patrão, ele não pára de pensar numa vizinha arrebatadoramente sensual, ao mesmo tempo que luta para escrever um segundo romance que tenha tanto sucesso como o primeiro, recusando a acreditar que simplesmente lhe falta talento.
Tanto neste filme como em “Match Point”, Londres é tratado como um cenário, o pano de fundo da história que nele se desenrola. Somos 'poupados' à visita guiada pelos monumentos e pelas vistas mais cliché, pois mais do que Londres, é o ambiente, a vivência da cidade britânica que se procura, não um desfilar de edificações reconhecíveis. Não a exuberância de Barcelona, mas sim a maior frieza e fleuma londrina. Mas se em "Match Point" a Londres que nos aparece é mais fria, mais cosmopolita, mais acinzentada, em "...A Dark Stranger", temos uma Londres mais colorida, mais 'light', mais cosy e mais british, se assim se pode dizer.
E tem razão de ser esta destrinça imagética de Londres. Pois o “Match Point” é, também ele, muito mais frio, dramático e trágico, pelo que o cenário serve o intento imaginado. Em ambos surge a temática “crime & castigo”, a temática do destino inexorável e pesado. Mas se em “Match Point” tal característica surge vincadíssima e quase em “carne viva”, em “…A Tall Dark Stranger”, Allen enfatiza o lado mais satírico, suposta e aparentemente mais light e ligeiramente mais divertido e colorido, como a Londres que nos dá a ver.
Mas, e aqui reside o ponto fulcral e interessante deste filme, “…A Tall Dark Stranger” vai muito para além do tom cómico e satírico que, aparentemente, dá o tom dominante à fita. Aparências iludem, essa é que é essa. Debaixo dessa sátira e desse humor, tão típico de Allen, esconde-se algo igualmente trágico e dramático. Pois, na verdade, o que começa por nos fazer rir, acaba por se tornar algo triste, incómodo e, porque não, angustiante. É assim que, se as primeiras idas de Helena à vidente despertam gargalhadas, à medida que o filme progride, a insistência e verdadeira dependência de Helena da óbvia (para todo, menos para ela) charlatã, acaba por dar um tom mais amargo à situação.
E é aqui, que se começa a descobrir o carácter verdadeiramente frio, cínico e semi-desesperante dói filme. O destino é algo que não se pode combater, parece ser a frase chave. Não é oferecida qualquer réstia de esperança aos personagens (e, por conseguinte, ao espectador também não) que, má decisão, após má decisão, acabam por se ver presos numa espiral descendente criada por eles próprios, que me escuso de descrever aqui, pois é esse o verdadeiro pathos do filme. Não há qualquer tipo de possibilidade de redenção.
É, neste aspecto, um filme cruel e incomodativo, quase sádico pelo que faz as personagens passar, e pior ainda, pelo fim a que chegam, desconcertante e desconhecido.
Certamente que o filme será atacado por ser apenas “mais um” do Allen, a fórmula do costume, etc etc. Ou, então, será atacado por ser um filme em “piloto automático”, sem nada que seja próprio do Allen que conhecemos. Enfim, alheio a isto tudo continua, e felizmente, Woody Allen. Continua a fazer os seus filmes e a contar as histórias que acha que devem e merecem ser contadas em cinema. E assim é que está bem. Não há que enganar com Woody Allen. Não há um filme mau com Allen nos comandos.
terça-feira, fevereiro 15, 2011
You Will Meet A Tall Dark Stranger
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